segunda-feira, 2 de maio de 2011

OURIVESARIA TRADICIONAL PORTUGUESA

Se há universos que devem ter fascinado o António de Menezes quando em 1938 recolhia imagens do Concurso da aldeia mais portuguesa de Portugal, a ourivesaria tradicional portuguesa deve ter sido um deles. 
Abundam os planos de raparigas com o colo coberto de cordões, corações e medalhas. Numa clara performance para as câmaras, jovens descalças conduzindo a junta de bois, exibem o ouro que, habitualmente, só usariam em dias de festa.

A Manhouce (primeira fotografia) e a Vila Chã (segunda fotografia) pertencem estas duas imagens. Se no primeiro caso é possível perceber quem é a rapariga através das outras fotografias da coleção (veja-se o post anterior e atente-se na rapariga do centro da segunda imagem), no segundo caso, só a visualização do filme permitiu conhecer a jovem. Sorrindo envergonhada para a câmara :)




O Coração de Viana, em prata dourada, à esquerda da imagem, é a peça  mais antiga que tenho. Herdei-a da minha avó paterna, filha de ourives, que a usou apenas como complemento do traje de minhota que vestiu com 6 anos de idade. Os brincos à Rainha e a pregadeira são peças muito mais recentes e (ainda) sem história.

domingo, 1 de maio de 2011

MANHOUCE, 1938

Poucos dias depois de ter chegado ao Museu de Arte Popular (em agosto do ano passado), mostraram-me, em suporte digital, a coleção das fotografias que integravam a museografia original do MAP. Lembrava-me, vagamente, de algumas das imagens, quando há 15 anos, estagiei no MAP. Mas destas quatro não tinha qualquer memória.



A pergunta imediata foi: vamos vamos fazer uma exposição sobre esta coleção? Na altura, com o processo de reabertura do Museu, foi impossível concretizar o projeto, mas mantive sempre a esperança que as 138 fotografias já digitalizadas pela DDF pudessem ser trabalhadas no contexto de uma exposição que integrasse, igualmente, parte do acervo do MAP.


Como referi no post de há dois dias, algumas das fotografias são fotogramas do filme A Aldeia mais portuguesa de Portugal, realizado por António de Menezes em 1938. Ou, pelo menos, de passagens que depois não foram aproveitadas na montagem. Só a visualização de todo esse material me permitiria tirar conclusões mais precisas.
De qualquer forma, é desafiante estar a visualizar o filme e ir descobrindo algumas das personagens  destas fotografias em movimento, dançando, correndo, sorrindo, trabalhando...ou, como se suspeita, representando tarefas para as câmaras. E poder situá-las espacialmente, o que dá uma terrível vontade de ir em busca destes lugares e dos descendentes destas pessoas.


Mesmo que esteja de saída do MAP, este projeto vai comigo. Às vezes descobrem-se olhares muito ternos nas imagens do filme e nas fotografias. Outras vezes são olhares de profunda tristeza, ainda que os contextos registados sejam sobretudo de festa. Mas também há sorrisos enormes. Como a própria vida...


Estas quatro fotografias pertencem a Manhouce, uma das aldeias a concurso. Dá vontade de lá ir e saber quem foram estas mulheres, não dá?

sábado, 30 de abril de 2011

FESTIVAL DA MÁSCARA IBÉRICA

Fazer baby-sitting a partir das 8h da manhã a duas crianças, sem saber onde está o termómetro, sem ter o telefone do pai, com a mãe a trabalhar num sítio sem rede e um dos putos a ficar com a testa quente, quente, quente é de me desaustinar.
Corri os buracos todos da casa até que me lembrei que o São Tomás de Vila Nova foste bispo e arcebispo, pelas sete chaves de Nosso Senhor Jesus Cristo faça com que apareça a porra do termómetro, funciona sempre.
39,1º. Passei-me. Ligo para a mãe, mando sms e nada.  Ao puto, de quase 6 anos, enfiei-lhe água e chá, anda, bebe para não desidratares. Toca de pôr uma toalha molhada na cabeça da criatura, ai, não, não, que não gosto de coisas molhadas na testa, e anda lá que ficas melhor e pronto, lá o convenci, enquanto a irmã, de 2 anos, saltava em cima do sofá, sou a Branca de Neve, sou uma princesa, sou a Cinderela e fiz muito cocó, não fiz?. Olho para o Ben-u-ron e sei lá se aquilo se dá aos putos. É este ou o outro frasco que está ao lado que agora já não me recordo o nome? E qual é o raio daquele número de telefone Doi Doi Trim Trim, ou Trim Trim Doi Doi?!
Lá me telefona a mãe e afinal era mesmo o Ben-u-ron e toma lá duas colheres e 10 minutos depois chega o pai sem saber de nada e mete o puto na banheira que naquele momento, já bem disposto, botava discurso sobre os presentes que espera receber daqui a uns dias no aniversário. Chiça!

Bom, toca de ir a casa mudar de roupa a correr e passar da versão baby-sitter desenxabida para a versão sexy, pecaminosa e poderosa de saltos altos e jeans que ao fim de 3 anos me voltaram a servir (os jeans, claro, que os pés continuam micro) e correr para Lisboa para o almoço no Restaurante Terraço do Tivoli oferecido pelo Gobierno da Cantabria a propósito do Festival da Máscara Ibérica.

Uma vegetariana abre o menú -Anchovas de Santoña con mantequilla de algas, Cocido benaniego actualizado, Lubina asada com salteado de verdura y salsa de ostras, Sorbete de limón Novales (para limpar o palato, claro), Solomillo con setas y Treviso, Sobao caramelizado com helado mantecao e Tabla de quesos de Cantabria - e pensa: vou comer o pão e os acompanhamentos e vingo-me na sobremesa.

Não consegui. Perante a rejeição das anchovas já tinha dois garçons a tentarem resolver o assunto e eu, querida como sempre, ai, não, não é preciso, e a pensar que um chef que vem da Cantábria de propósito para servir comida de lá aos tugas de cá ainda se vai ofender de ter de cozinhar um prato diferente para uma alternativa. Mas foi tão querido :)


Quando ingenuamente esperava uma saladinha clássica, chegou à mesa este pratinho de legumes (ervilhas de quebrar, espargos verdes, pimento amarelo e tomate cereja) assados. E com uns brotos de enfeite. Lindo! E saborosíssimo.


Depois, quando eu já não esperava mais nada, foi-me servido este risotto de legumes assados. Muy bueno! Um almoço destes é memorável. Ainda mais porque a companhia era excelente e a conversa foi feita de confidências e confissões com muita gargalhada à mistura.

Depois foi descer a Avenida da Liberdade até ao Rossio para ver a atuação dos grupos no Festival da Máscara Ibérica. Pena foi a chuvada que estragou a festa. Esperemos que amanhã haja sol.


Irónico, irónico é ser o Governo da Cantábria a financiar este festival. O que raio anda a fazer o Turismo de Portugal...


sexta-feira, 29 de abril de 2011

TRANSIÇÃO


Uma das coleções mais fascinantes do MAP é a das fotografias que integravam a museografia original do Museu. Algumas dessas fotografias são fotogramas do filme A Aldeia mais portuguesa de Portugal, realizado por António de Menezes em 1938. É o caso da fotografia que aparece à direta da imagem e que mostra uma mulher a espadelar o linho numa das aldeias a concurso: Boassas, que faz parte da freguesia de Oliveira do Douro e pertence ao concelho de Cinfães. Segundo as palavras de Augusto Pinto, ditas por Estêvão Amarante no referido filme, esta aldeia "É um povoadinho de presépio colocado nos contrafortes da Serra de Montemuro".


Coincidência, ou não, um dos grupos que atuou por ocasião do Mercado da Primavera no MAP foi o Rancho Tradicional de Cinfães (cujos elementos residem em Lisboa).
A performance não incluia apenas dançar. Algumas das fases do ciclo do linho foram também representadas.


Se tudo se concretizar estarei em breve no terreno a recolher dados associados a este e a vários outros saberes. À semelhança do que tem acontecido com as minhas pesquisas em torno da comida, não pretendo apenas ficar-me pelo registo distanciado. Porque sempre considerei que a aprendizagem dos saberes passava pela real experiência dos mesmos.


Foi com esse espírito, aliás, que acumulei um capital culinário que mistura folares de Chaves, com bolos de azeite das Donas e burfis dos Hare Krishna.
Agora, o desafio é muito maior. Acredito que também mais fascinante.


terça-feira, 1 de março de 2011

LACAM NO MUSEU DE ARTE POPULAR

No sábado passado, o Museu de Arte Popular recebeu o grupo LACAM, vindo dos campos do Mondego.


Chegaram já trajados e, depois de uma visita guiada feita pelo meu colega Pedro Gaurim, animaram, com cantares da região, o final de tarde a quem passava frente ao Tejo.


As rodilhas usadas por algumas das mulheres do grupo lembraram-me as da coleção do MAP as quais irão integrar, em breve, a iniciativa da "Peça do mês".


Como era previsível foquei-me na Dobadoura enfeitada de comida: "Os rapazes ofereciam às raparigas quando terminavam os trabalhos nos campos". A merecer pesquisa, portanto.

 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

VISITAS

As visitas guiadas ao MAP, asseguradas pela MAPA DAS IDEIAS, representam, a par da investigação em torno do inventário, os meus momentos mais prazeirosos no Museu.
Com os mais pequeninos, as visitas começam, normalmente, com uma exploração do mural  da Sala do Minho da autoria de TOM.


Depois, das histórias contadas, as crianças percorrem o MAP até ao terraço da Sala do Alentejo.


Aí, fazem de conta que são artistas crescidos.


E, ao sol, desenham, as suas próprias histórias...


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

AQUI HÁ GALO!

A semana passada fomos em delegação ao Museu da Olaria de Barcelos identificar e selecionar peças para a próxima exposição temporária Aqui há galo!
A viagem, feita em velocidade supersónica, deixou-me à beira de um ataque de nervos. O meu treino mossádico formatou-me para pensar em todos os cenários possíveis de acidente: "se o carro bater e virar eu tenho de encolher as pernas e proteger a cabeça, mas o raio das galochas não me deixam pôr as pernas em cima do assento rapidamente". Paranóias, portanto.


Mas lá chegámos inteiros ao Museu de Olaria de Barcelos para a escolha das peças já previamente indicadas por nós. Claro que ainda descobrimos mais umas quantas que nos interessaram.


Depois, fomos almoçar a um restaurante épico (A Bagoeira) com opção vegetariana. O resto da equipa atacou no polvo e nos enchidos. Eu, além da sopa caseira, fui afogada na surpresa do chefe: um ratatui capaz de alimentar uma família extensa de 14 pessoas.


Para finalizar a embaixada a Barcelos fomos à feira semanal consumir produtos locais. Ainda voltámos ao Museu para recolher uma broa épica de uns 3 quilos.

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Sou uma antropóloga que só pensa em comida...
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