quinta-feira, 30 de junho de 2011

A ROSA DO ALFAIATE

Oitenta e dois anos de memórias. Conheci-a, no sábado, em Gralhas. Viúva do alfaiate da aldeia, tornou-se incontornável voltar a falar com ela. Tinha as capas e a capuchinha guardadas numa arca. Mostrou-me capas de um burel escuro, escuro, feitas de dois panos e com as costuras praticamente invisíveis. Capas com muitos anos mas muito bem preservadas. Mostrou-me uma capa de burel, da cor dos caramelos, mais antiga, mais usada e, por essa razão, com a cor comida pelo tempo.
E mostrou-me esta capuchinha, feita de pedaços de burel sobrados de outras capas.



(Rosa Cipa usando uma capuchinha)

Capas e capuchinha feitas com a lã fiada por ela, das ovelhas do seu rebanho. Já não tem a roca com que fiava a lã. Esta, feita de cana, serve apenas para enfeitar uma das paredes azuis da sala. E para virar as tripas dos porcos quando se fazem as matanças.


(Roca)

Rosa diz que o marido talhou muitas capas para as mulheres da aldeia e de Meixedo. E que talhava fatos para os homens e, por vezes, casacos de fazenda para as mulheres. Ainda antes de se casarem fez-lhe um casaco de pelúcia trazida da Galiza.
Costumava ir a casa dos clientes e quando o trabalho era muito passava dias e dias fora de casa.


(Detalhe de uma das réguas de alfaiataria do marido)

Rosa não aprendeu o ofício do marido. Mas nunca se esqueceu de como se fia, embora já não o faça há anos. A casa dela está cheia de memórias de lã.


(Fusos para fazer meias e cobertores)

Nos fusos diferentes que eram usados para fiar a lã para fazer as meias (com a ponta mais fina) e para fazer os cobertores (com a ponta mais grossa). E nos vários cobertores pesadíssimos, que já não são usados, e que se descobrem, como tesouros há muito guardados, quando se abrem as tampas das arcas.


(Rosa Cipa mostrando um dos cobertores com lã fiada por ela)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

DAS CAPAS E DAS AGULHAS EM GRALHAS.

Na primeira vez que estive em Solveira, o sr. Jaime mostrou-me este jugo. Comprei-o a um homem. Mas não me adiantou mais informação sobre a proveniência do mesmo. Este sábado, em Gralhas, quando buscava, na companhia do sr. João Fino, o último artesão da aldeia a fazer agulhas em urze, encontrei o autor do jugo.


(O jugo de Manuel Chaves feito em 1960)

Pegou num pauzinho para mostrar como ficarão as agulhas e disse que trouxesse as máquinas para filmar e fotografar. Que fazia as agulhas e, se quiséssemos, ainda fazia espadelas e outras coisas. Na casa do sr. Manuel Chaves há muitas peças de madeira para vender. Quem vem de fora desconhece que pode adquirir estas peças. Valia a pena apostar em estratégias de divulgação que beneficiassem estes artesãos e que permitissem aos visitantes deste território aceder diretamente a quem ainda trabalha nestas artes.




Em casa do sr. Domingos Fino vi mais uma capa de burel e um avental de lã. A capa era usada tanto por homens como por mulheres. A capucha era o nome que davam a uma capa mais curta. E "crucho" é o nome que dão à parte que assenta sobre a cabeça.


(Sr. Domingos Fino mostrando uma outra forma de usar a capa)

A diferença entre o tecido do avental de lã e da capa, é que o primeiro não é apisoado. É áspero. Será porque aqui as ovelhas só são tosquiadas de ano a ano? :)

(Pormenor do avental de lã)

terça-feira, 28 de junho de 2011

O ÚLTIMO PISOEIRO DE TABUADELA

Depois do almoço, tomei a estrada 103 que liga Montalegre a Braga. Tinha agendado a primeira entrevista com o sr. Francisco, o último pisoeiro de Tabuadela. Atravessei as ruas empedradas da Reboreda e perdi-me nos montes até chegar à aldeia.

O cão grande, um Serra da Estrela com olhar de mel, esperava-me no portão da casa. Dei-lhe uma festa e ele encostou a cabeçorra no meu regaço. Repeti a dose de mimos.

Ficou cá fora, enquanto o sr. Francisco e eu subimos ao primeiro andar para conversar e resgatar memórias. Uma conversa de quase três horas feita de risos, anedotas e algumas lembranças magoadas. No final da tarde, foi-me mostrar a capa que a mãe usou.



Hoje aprendi tantas coisas. Aprendi que os fios do novelo, quando são torcidos, não o devem ser em demasia porque isso faz com que o tecido não fique tão felpudo quando é tecido e que, depois, no processo de apisoamento, seja mais difícil cobrir os espaços vazios. Diz o sr. Francisco que se os fios forem pouco torcidos as mulheres têm menos trabalho e o pisoeiro tem a tarefa mais facilitada.
Para ficar bom, ao torcer a lã com o fuso, se torcerem muito, a lã fica mais apertada. Se torcerem pouco, a lã fica mais solta. Embora pareça que fica mal, ao chegar ao pisão, com a água quente, porque aquilo é só a poder de água quente e porrada dos malhos, cobre. Há buréis que a gente mete um dedo e tem buracos onde cabe um dedo e depois fica tudo tapadinho. Se não ficar tão torcido, no pisão cobre muito melhor e fica mais macio



Também aprendi que a lã das ovelhas que só são tosquiadas de ano a ano (e não em maio e setembro, como ainda parece ser usual naquela zona) produz um pano mais áspero e muito mais difícil de ser apisoado.
Aqui a lã das ovelhas era retirada no mês de maio e no mês de setembro. No mês de setembro até maio tinha de ficar, porque as ovelhas sem a lã não aguentavam o frio. Em Montalegre era só no mês de maio. No mês de setembro já não tiravam duas vezes. Aqui é mais quente, por isso tiravam mais vezes. Para Montalegre e mais frio. O burel de Montalegre faz uma diferença muito grande, porque o burel de Montalegre era da lã de ano. Só era tirada de ano a ano. E a lã ficava muito mais comprida e mais rija. No pisão depois notava-se. O nosso burel ficava maciozinho e o outro é mais áspero. A diferença é da lã. Porque a lã andando muito tempo na ovelha, passa o frio e calor, a lã vai ficando acastanhada, qualquer coisa a poder de tempo faz perder a cor. Por isso aquela lã fica mais acastanhada e mais rija e para apisoar é mais difícil.




E que uma capa precisa de um pano que depois de apisoado fique com 3,30 metros de comprimento. Aprendi tantas coisas. Agora só tenho de transcrever esta entrevista tão longa para começar a arrumar tanta informação na minha cabeça. Há conversas que valem por dez livros.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

DO FIM DE SEMANA

No sábado fui conhecer a Associação Social e Cultural da aldeia de Gralhas. Comecei a tarde a falar com um grupo reunido na junta de freguesia sobre as carvoadas, mais um dos temas do projeto, as filhoses, os ramos de boda, a vezeira e as capas de burel. Ficaram já agendadas novas visitas à aldeia para entrevistas, fotografias e filmagens.
Depois, em companhia de um dos participantes, fui visitar algumas das casas da aldeia. Vi capas de burel e aventais de lã, jugos para o gado e conheci quem ainda faça agulhas em urzeira (aqui é assim que dizem). Está prometida a execução de um par de 5 agulhas para fazer meia e duas para fazer camisolas para registo em vídeo :)
À noite, como prometido, voltei à aldeia para a festa de São João. Comi um caldo verde divinal.


(Capela de São João da Fraga)

Ontem, domingo, fui fazer o trilho de São João da Fraga, em Pitões das Júnias. É dura, muito dura, a subida, mas vale a pena ir lá acima à capela. Esta missa só se realiza uma vez por ano (se fosse todos os domingos as pessoas perdiam a fé, disse-me o câmara da TV Barroso, que teve de levar até acima o equipamento). No final da mesma, as duas imagens, Cristo na Cruz e São João, juntamente com os participantes, dão voltas à minúscula capela.


(Imagem de São João presidindo o arraial)

Depois, é descer, comer e bailar. Os caminheiros tiveram direito à merenda proporcionada pela organização. Os habitantes locais trouxeram os liteiros e cobriram-nos com comidas de festa, confecionadas em casa e oferecidas a quem com eles conversava.

(Tocadores de concertina)

Depois das comidas e dos foguetes, foi tempo para tocar e cantar ao desafio e para bailar. A tarde toda.


(Detalhe das concertinas)

sábado, 25 de junho de 2011

sexta-feira, 24 de junho de 2011

DA CAPA E DO MANTIL

Mas também podia ser da capucha e do mantim. Ou mandim. Todos os dias aprendo coisas novas. E novos nomes. Mesmo com pessoas que me dizem para falar com os mais velhos. A capa também servia para cobrir os cestos quando o pão levedava. Por cima, acrescentavam os cobertores de lã.


(Capa de burel industrial à venda na loja da Sede do Ecomuseu de Barroso)

Fátima, que em criança cuidava do rebanho, explica-me, ainda, que as capas de burel (ela chama-lhes capas e não capuchas) serviam para aquentar os animais doentes. Para a espinha ter mais aquecimento, punha-se uma capa e um cobertor à volta do corpo dos animais e atava-se com uma corda. Quando estavam nas cortes. E se a constipação era forte davam-lhes umas garrafadas: chá de alecrim, mel e um pouco de bagaço.


(Detalhe da parte de cima da capa)

Fátima é pouco mais velha do que eu. Em pequena usava a capa de burel. Explica-me que à parte da cabeça dão nomes diferentes: gorro, cabeço, carapuço. E que há duas formas de talhar e costurar a parte de cima da capa. Ou apenas com uma costura ao meio ou com duas costuras, ficando o cabeço com a forma triangular que se pode ver na imagem de cima.


(Avental de costas. Aqui usado à volta da cintura. Também à venda na loja da Sede do Ecomuseu de Barroso)


O avental de costas, ao qual alguns chamam mantim ou mandim, igualmente polivalente, parece ter zonas, dentro do concelho, de maior uso. Pitões das Júnias é uma das localidades que me foi indicada como referência. Para a semana, mais liberta das longas conversas com a D. Benta, que estará ocupada com tarefas inadiáveis, rumarei a Pitões para explorar a pista dos aventais de costas.


(Detalhe do avental de costas. Aqui, atado à volta do pescoço)

Agora vou ali a Reboreda, ao arraial de São João, na companhia da D. Benta. Aproveito para apreçar a capa de burel que ela tem por lá.

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Sou uma antropóloga que só pensa em comida...
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