sábado, 16 de julho de 2011

AS HORAS DA ÁGUA



Ontem. D. Ana estava no tanque público de Covelães a acabar de lavar a roupa. Vou com as meninas, mostrar os regadios. A aldeia tem duas poças que alimentam três corgas: a da Cruz, a das Serdeiras e a da Portela. Um sistema de regos, canais e ferralhas permite que a água chegue a todos. E lá fomos pela aldeia acima, ouvindo as suas explicações de como se distribuem as horas de rega pelas diferentes terras da aldeia.

Às 9h da noite fecham e às 6h da manhã voltam a abrir. Daqui vão dois homens pelas terras abaixo ver o que tem de milho. Àquela terra dão 5 horas, à pequenina, dão 2 horas. Põem o papel lá em baixo. São homens que já sabem das coisas. Às vezes as pessoas lá se zangam "deste mais uma hora!", mas não é assim de conflitos. Isto já vem dos antigos.




sexta-feira, 15 de julho de 2011

NA OFICINA DO JOE

O Joe e a Gitte andavam a passear por Portugal. Um dia, passaram por Outeiro e gostaram tanto da paisagem que, uns anos depois, construíram uma casa fantástica onde vivem há 14 anos. Do terraço, onde há maracujás a amadurecer e alfazemas a perfumar o ar, vê-se o mar da Barragem de Paradela para lá dos campos cultivados de milho e centeio. 

O Joe define-se como um artesão profissional. Faz, sobretudo, peças utilitárias como candeeiros, castiçais, gradeamentos, cadeiras. Embora a maioria dos clientes seja do concelho de Montalegre, mas também de Chaves e de Braga, há aqueles que vêm de longe descansar um fim-de-semana neste paraíso e acabam por levar alguma das peças que ele tem espalhadas pela casa.


 (Detalhe do assador e das cadeiras do terraço)

A paixão que tem pelo trabalho do ferro não o impede de experimentar outros materiais como estes porta-chaves (mas que eu acabei de transformar no meu colar-talismã) feitos de cobre e recheados de couro.
Na segunda-feira, voltaremos à sua oficina para filmar o trabalho na forja e quando for o Festival do Castanho, acompanharemos o trabalho do Joe ao vivo.


(Porta-chaves em cobre e couro e colares em couro. Os últimos são também vendidos no Ecomuseu)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

CHOCALHOS

Fernando Barracão. Faz os relatos dos campeonatos das chegas de bois e tem 80 anos. Reuniu, ao longo da vida, uma coleção de mais de 600 objetos que foi comprando ou que lhe foram oferecendo. A coleção pertence agora ao Ecomuseu de Barroso.
A propósito de um destaque em torno da coleção de chocalhos, pedi que viesse ao Ecomuseu falar sobre os objetos. Filmámos a conversa e, assim, já fica guardada esta pequena fatia da memória deste homem.
Chocalhos das cabras e das ovelhas, das bezerras e dos furões. Chocalhos das vacas que andam no Gerês e que são mais pequenos do que os das vacas que não pastam nessas zonas, porque o terreno é acidentado e um chocalho muito grande incomodaria o animal.
Chocalhos presos a coleiras mais estimadas que se punham ao pescoço das vacas quando estas iam para as feiras concorrer aos prémios.
E da coleção também fazem parte as campainhas para avisar os donos dos rebanhos das cabras e ovelhas que é hora de reunir os animais para que o pastor possa ir para o monte (atualmente, em Gralhas, usa-se o telemóvel para chamar os mais atrasados, mas isso fica para um post lá para o fim do mês...).

quarta-feira, 13 de julho de 2011

FENOS

Pela manhã entrevistei o Alexandre, um jovem produtor local de sabonetes. A seguir ao almoço, a Dina - a camera-woman - e eu rumámos a Gralhas para registar o modo com a comunidade está a gerir a reconstituição das carvoadas. Tinha pensado em recolher testemunhos na junta de freguesia, local habitual de reunião da comunidade, pois sabia que os informantes que tinha identificado no meu primeiro contacto com a aldeia, estavam a ter um encontro promovido pela Biblioteca Municipal.


(Fardo de feno)

(Detalhe da forquita usada para juntar o feno)

Contudo, enquanto esperávamos que o encontro terminasse, fomos convidadas para assistir ao juntar e enfardar do feno. E lá fomos nós. Lá estavam o Domingos Pita e o João Bengalas que eu já conhecia da minha primeira visita à aldeia. E a D. Ana, que liderou os cantares nos momentos de pausa:

À entrada deste povo
Moro na casa primeira
Ó Rosa, ó Rosinha
Logo na casa primeira
Ide escolher uma rosa
Sem pôr a mão na roseira
Ó Rosa, ó Rosinha
Sem pôr a mão na roseira
Dizes que me queres bem
Querer bem não é assim
Dizes que me queres bem
Querer bem não é assim
Ó Rosa, ó Rosinha
Querer bem não é assim
Ai, viva Gralhas, viva Gralhas
E eu também digo que viva
Viva Gralhas, viva Gralhas
E eu também digo que viva
Ó Rosa, ó Rosinha
Eu também digo que viva
E eu ainda tenho em Gralhas
Por quem dar a minha vida
E eu ainda tenho em Gralhas
Por quem dar a minha vida
Ó Rosa, ó Rosinha
Por quem dar a minha vida


(Juntar o feno antes da chegada da enfardadeira)

Acabámos, no meio dos trabalhos agrícolas, por registar aquilo que nos tinha levado à aldeia: as leituras divergentes sobre a reconstituição das carvoadas. Ficaram já agendadas novas visitas à aldeia. Nomeadamente para filmarmos o fazer das agulhas de urze e para acompanhar a vezeira até ao monte.


(Enfardadeira em ação)

terça-feira, 12 de julho de 2011

TOURÉM II - DOS PANOS

Na casa dela existe o único tear da aldeia que ainda é usado. Ainda anteontem tinha urdido a teia e, brevemente, vai voltar a pôr o tear a uso. Até porque tem gente nova na família que quer aprender. E estão quase a chegar do estrangeiro.


(Uma das casas da aldeia de Tourém)

Entrar na casa dela, para além da experiência mágica da horta e da surpresa de ter um museu lá dentro, é descobrir um mundo de coisas antigas que ainda são usadas numa base regular. Como se o tempo tivesse andado na direção certa.


(Linho já fiado em exposição no pátio interior)

Nesta casa, as coisas são guardadas não para serem esquecidas, mas para serem desfrutadas diariamente, seja através das memórias que despertam, como a máquina de encher chouriças, seja através do uso que lhes é dado. Como o tear.


(Teia pronta a ir para o tear)

Nas arcas e nos armários da casa da D. Maria guardam-se muitos panos que vão sendo transformados em colchas, em tapetes e passadeiras, em toalhas de mesa e mesmo em sacos para as filhas usarem. Um mundo onde irei voltar mais vezes.


segunda-feira, 11 de julho de 2011

TOURÉM I - ROL DA REGA

Para além das aprendizagens mais imediatas de âmbito teórico, metodológico e etnográfico, a pesquisa de doutoramento ensinou-me a olhar para os informantes com outros olhos. Imaginando como teria sido a vida dessas pessoas nos primeiros anos de existência. E tentando perceber como, no tempo presente, as recordações mais tortuosas e afetuosas são geridas. Aprendi, também, que devo aceitar que mesmo que os anos passem, que muitas décadas se acumulem, também eu não vou conseguir esquecer o pior e o melhor dos meus primeiros anos de vida.

Foi estranhamente recorrente na pesquisa que então desenvolvi, as memórias referentes a relações conflituosas com as mães. Uma dessas mulheres que entrevistei referia-se sempre à mãe com uma mágoa que o tempo já tinha temperado com perdão.

A minha mãe nunca me ensinou nada. Eu fui criada mais com as empregadas do que com a mãe. Mesmo as recordações de afeto, eu tenho mais das empregadas do que com a mãe. Agora as pessoas dizem que os pais estão ausentes, mas naquele tempo muito ido, acho que já a minha mãe vivia só para o negócio. Ela era mais áspera, dura. Não me lembro do afeto da mãe. As minhas filhas já me fizeram esta observação várias vezes: “Não sabemos como é que nasceste daquela barriga”. Eu sofri, tendo eu tudo quanto queria. Não é só a parte material que interessa, porque na minha idade de menina e moça ela dava-me dinheiro para eu comprar qualquer coisa. Acho que ela me compensou com coisas que seriam até  supérfluas. Não me lembro de estar ao colo da minha mãe, não tenho essa recordação com muita pena minha. Com o meu pai ,sim. Ele dizia-me: “Ó filha das minhas entranhas, dá-me um beijo que eu dou-te castanhas”. E eu depois pedia-lhe as castanhas!

E eu ficava a imaginar como teria sido a vida desta mulher em criança. Agora, com este trabalho, que se constrói em boa parte com a memórias das pessoas mais velhas, eu continuo a olhar para os olhos deles e a ver num brilho fugaz as mágoas da infância, as dores que o tempo não conseguiu mitigar, ou as alegrias lembradas como se estas fossem âncoras pacíficas do passado. Como hoje com o sr. João.

Partimos da Vila de Montalegre com o objetivo de ir fazer uma primeira entrevista com aquela que me tinha sido indicada como a última mulher a fazer aventais de costas em Pitões das Júnias. A ideia era rentabilizar a viagem e produzir já alguns registos audio-visuais. Mas o terreno é feito de imponderáveis e a tecelã não se encontrava na aldeia.

Rumámos, então, a Tourém para tentar recolher alguns testemunhos sobre outros dois temas do projeto: o rol da rega e os casamentos cantados. E pareceu que o sr. João, com 90 anos de memórias incrivelmente lúcidas, estava à nossa espera. Olhos azuis de um azul que o tempo ainda não esbateu. Explicou-me o que se cultivava naquela aldeia há muitos anos e como a água era repartida, pelos diversos campos através de um sistema de canais e de mecanismos que permitiam, e continuam a permitir, que todos possam beneficiar desse bem. Ao sr. João juntou-se o sr. Domingos e, passados alguns minutos, já eles recordavam como era vida antes das coisas modernas terem aparecido na aldeia e quando a aldeia tinha mais de 1000 pessoas e 700 vacas.

E, depois, deixámos o sr. João e fomos com o sr. Domingos conhecer o sistema de rega pela aldeia. E ver como se desviava a água por diferentes canais para servir a todos e como o Roteiro da Água dos dois caudais de água que chegam à aldeia são pacificamente geridos. Aqui nunca se matou por causa da água.





E fomos ao cemitério ver os mortos e as campas enfeitadas com flores de plástico. E depois, depois abrimos um portão e estávamos na horta mais bonita do mundo. Como se dentro daqueles muros, as flores e os vegetais tivessem encontrado a forma perfeita de se organizarem no espaço. Na casa do irmão do sr. Domingos também há uma incrível coleção de objetos. Um museu, como ele lhe chama. E vimos os muitos panos que a sua mulher tece no tear.



E depois fomos ver os animais. Já no caminho para a aldeia encontráramos uma manada de vacas que estava a ser encaminhada para a aldeia porque as vacas estão todas prenhas e vão parir na aldeia porque os bezerros não podem nascer no monte ou os lobos atacam. Já não há 700 vacas na aldeia e as cabras, que podem ter mais de 500 pulgas cada, diz o sr. Domingos, são raras. Tal como as ovelhas. Cavalos também há.  Mas esses pertencem aos montes.




De volta ao terreno.




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Sou uma antropóloga que só pensa em comida...
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