sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O ÁGAPE DAS ABELHAS

Na claridade expressiva do seu olhar adivinha-se o desejo de liberdade. Uma liberdade que, no cenário da imensidão das serras e dos céus do Barroso,  ganha um sentido especial no maneio do gado voador.
Sucedem-se os gestos de acordo com a tranquilidade inquieta do olhar. Como se fosse permitido, a quem o observa, adivinhar a direção do movimento seguinte a partir das expressões que transparecem dos seus olhos.



As tonalidades pastel das colmeias contrastam com as cores saturadas da vegetação das encostas em redor. Camadas de verdes intensos e distintos, salpicadas de roxos, brancos e amarelos das flores.
Ao longe, sob o sol escaldante, as silhuetas brancas deverão assemelhar-se a semideuses encarregados de crestar o néctar para satisfazer os desejos gulosos de Deméter.


No dia seguinte, o cenário não é mais o da natureza selvagem, bruta, agreste. A extração do mel ocorre num ambiente domesticado, fechado e artificial. Observo, com curiosidade crescente, o comportamento errático das abelhas, tão longe de casa e condenadas a morrer órfãs de lugar. Fascinam-me os minúsculos hexágonos dispostos de forma tão perfeita uns ao lado dos outros. Milhões de cápsulas doces com tonalidades diferentes resultantes da flora diferenciada que serviu de pasto às abelhas.
Ainda que o ambiente seja laboratorial, o cheiro e o sabor deste mel colocam-me muito longe dali. No meio da serra, no meio das flores, perto de um curso de água. Não se ouve nada. Exceto o mordiscar dos favos para lhes extrair o suco doce. E a sala de extração deixa de ser branca e as tonalidades verdes da vegetação acabaram de salpicar as paredes e o chão. O desejo de liberdade também me assiste.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

MATÉRIA PRIMA

Colchões de palha e cobertores de papa são, na minha memória de criança, temas recorrentes nas conversas entre as mulheres da família. Do lado materno.
O cobertor de lã (que não é um cobertor de papa) que herdei da minha avó Susana continua a ser o meu favorito. Não sei se este favoritismo é por ter aquela cor que me faz lembrar o leite creme, se é pelo peso aconchegante ou se é por ter a costura ao meio que me permite imaginar mais facilmente como terá sido tecê-lo num tear de uma casa da aldeia das Donas (terá sido nas Donas?).

Talvez tenham sido estas memórias que, muitos anos mais tarde, me fizeram andar a pesquisar sobre materiais e equipamentos mais saudáveis para dormir. Cheguei a comprar um colchão com recheio de algodão (o mesmo recheio do meu tapete de yoga), mas não foi uma boa compra. Desconfortável e com tendência para criar humidade.
Ficou-me, no entanto, este interesse por esse tipo de materiais e equipamentos. Bom, admito que a leitura dos muitos livros de naturismo que havia em casa dos meus pais deve ter tido alguma influência. Não é à toa que prefiro dormir de janela aberta :)
Poucas semanas depois de ter chegado a Montalegre, em conversa com a D. Benta, falámos na possibilidade de se aproveitar a lã para rechear edredons, almofadas e mesmo uma ou outra peça de vestuário.
Lembrei-me desta conversa quando, há uns dias, ao ler a Rosa, descobri esta Associação que tem vindo a desenvolver um trabalho fantástico com a lã, valorizando-a pela via do artesanato e pela sua utilização como isolador na bioconstrução.
Por aqui, ainda não consegui perceber o que acontece à lã. Aqueles(as) que ainda fiam, aproveitam-na, mas já me foi dito que muita da lã resultante das tosquias de maio é vendida ao desbarato. Porque não sabem o que hã-de fazer com ela. O certo é que, também, os rebanhos de ovelhas vão escasseando...
Ainda se consegue encontrar lã tosquiada. Como em casa da D. Maria em Tourém. E mulheres dispostas a ensinar o que sabem a quem quer aprender.

Por vezes, as melhores soluções estão mesmo à frente de cada um de nós. As energias que se gastam nos lamentos seriam melhor usadas a aprender a ouvir quem tem algo para nos ensinar e a aprender a ver, verdadeiramente, o que nos rodeia.





terça-feira, 9 de agosto de 2011

ESTREIA EM TOURÉM

Quando fui a Tourém pela primeira vez (a primeira vez desde que estou neste projeto, porque, há 5 anos, apaixonei-me por esta aldeia), o sr. Domingos foi-me mostrar a quinta do irmão, o Sr. José, e da cunhada, a D. Maria. Foi assim como uma visão do paraíso. Os portões abriram-se e eu mergulhei numa explosão de cores e de texturas e de cheiros. Um daqueles lugares em que as pessoas parecem viver em absoluta sintonia com a natureza.
Hoje, voltámos lá para a primeira entrevista com a D. Maria e o Sr. José. Deve ter sido a entrevista que melhor me correu: pelo fluir das palavras, pela descontração de ambas as partes, pela empatia imediata. Uma entrevista que me permitiu explorar as rotas de sementes, de conhecimentos e de plantas entre Boston e Tourém, assim como os processos de reinvenção espacial da casa da aldeia do outro lado do oceano.



Uma viagem a Tourém com o intuito de fazer uma entrevista muito específica, acabou por se transformar numa tarde de descobertas e de estreias. É que a D. Maria não tem apenas a horta mais fantástica da aldeia. É, também, a última mulher a tecer. Já tinha visto o tear dela duas vezes. A primeira, sem a teia posta, na segunda já com a teia posta e um trabalho iniciado. Destinado a ensinar as mulheres jovens da família.
E, D. Maria, entusiasmada pelo nosso interesse, foi para o tear mostrar como se tece. E mostrou-nos uma das lançadeiras mais belas que alguma vez vi. Feita especialmente para ela (podem ver-se as iniciais numa das imagens).


A certa altura, deve-me ter escapado um gostava tanto de aprender. Ora venha aqui para dentro. Eu ensino-a. E fui. De início estava mais preocupada em não estragar nada (já se sabe, uma pessoa que é capaz de pôr o dedo na varinha mágica, pensar que não a pode ligar e ligá-la, não é de confiança...) e em não atirar as lançadeiras ao chão de cada vez que as movia.
Depois relaxei e comecei a interiorizar a lógica do funcionamento do tear...foram só uns minutos mas foram tão mais ricos do que todos os textos já lidos sobre tecelagem :)



Depois, bom, depois, ainda tive direito a isto :) Duas ovelhinhas fofas e meigas que vieram comer folhagem à minha mão. A forma perfeita para terminar esta tarde em Tourém :)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A VEZEIRA DE FAFIÃO

Vinte e duas vacas e cinco bezerros. Há umas semanas fui, pela primeira vez, a Fafião. Ia com o contacto do Lino, da Associação da Vezeira, mas acabei por passar a tarde à conversa também com o Alcides. Na altura, ficou combinado irmos com ele para a serra quando calhasse a sua vez na vezeira das vacas de Fafião. Foi hoje.
Partimos em direção a Fafião por volta das 4.30H da madrugada. O caminho é longo e a hora combinada com o Alcides era às 5.30H lá na aldeia. Parte do percurso foi feito nos jipes. Depois, começámos a subir a pé. Foram duas horas e meia de um percurso duro, íngreme, de frio a entranhar no corpo, quando se fazia uma paragem mais demorada, e de calor a apertar quando prolongávamos a caminhada e o sol se punha mais alto e mais quente.
Vimos corças, mais de vinte, numa escarpa em frente à malhada onde fizemos a primeira paragem para comer. Um pequeno almoço gentilmente preparado pelo Alcides.

Uma malhada é uma área onde a manada pasta durante um determinado número de dias. Há
a malhada do Salgueiro, a mais próxima da aldeia, do Pinhõ, Pousada, Bicos Altos, Prado Lã, Amarela, Iteiro d'Ovos, Videirinho e Rocalva. O gado sobe em maio e desce, sempre, a 29 de setembro.
Neste momento, a vezeira está em Rocalva. Isso significa que subimos até aos cerca de 1300 metros de altitude. Cada malhada tem uma cabana onde os pastores dormem e uma zona, o forno, onde cozinham. A de Rocalva fica num lugar magnífico rodeado de penhascos, ficou hoje com água canalizada vinda diretamente de uma das fragas e tem um carvalho imenso que dá a sombra ideal para se comer e dormir uma soneca.

É um sentimento de liberdade, lá em cima é paz e sossego e a imensidão (Lino).



Este é o primeiro ano em que os pastores já não dormem no monte. Alguns ainda o fazem quando ficam na vezeira dois dias seguidos. É que o número de dias que se vai lá acima, depende do número de cabeças de gado que se possui.
Mas com a falta de gente na aldeia, com os telemóveis (quem está lá em cima avisa depressa a aldeia se houver algum problema), decidiu-se que se vai todos os dias de madrugada e se volta ao final do dia.

Apesar das mudanças Pouca gente usa enlatados. Um comer que se utilizava muito todos os dias à noite era massa. Quando se ia lá dormir, o vezeiro que lá estava fazia sempre, sempre, sempre, massa, porque a massa é um comer que espera. Pode ser comida a qualquer hora que o vezeiro pode-se atrasar 1 hora que a massa não se estraga tão fácil depois de cozinhar. Então era sempre massa, massa com chouriço, massa com bacalhau, ou massa com carne. Porque a pessoa que sobe já não tem tempo de cozinhar, porque chega lá à noite e já vem cansado e já não tinha tempo de cozinhar e todos respeitam isto. E quem sobe leva o vinho. Antigamente dormiam lá os dois, não deixavam vir ninguém embora. O que lá estava também tinha de ficar lá, vinha no dia seguinte de manhã e então o que subia levava o vinho para os dois e o que lá estava fazia a massa para os dois. O vinho que tinha ido já tinha terminado, ou aquecia (Alcides)

Hoje, o Alcides fez massa com feijão e couve com carne na brasa para o nosso almoço. E ainda tivemos direito a café e fruta. Escusado será dizer que houve tentativas, não concretizadas, para eu comer carne :)



A Laranja, uma das vacas, está habituada a vir comer à mão e a exigir, impacientemente, os restos das refeições. Há muitas histórias em torno dos animais. Uma das mais curiosas, que já me tinha sido contada pelo Alcides, é a da lata das guias.

Recordo-me de ainda haver a lata das guias, porque na altura havia muito contrabando e havia muita fiscalização da guarda fiscal.  Nós tínhamos uma lata e cada vaca tinha um cartão, como tem hoje, uma identificação, e eles eram obrigados a acompanhar a vezeira com a guia das vacas. Tinham numa lata que era a lata das guias, uma lata quadrada, mais ou menos como as guias, onde as guias estavam ali todas encaixadinhas. Se viesse a guarda fiscal tinha de se apresentar a identificação de todos os animais que lá estavam porque, se não mostrassem, podiam-nos prender a pensar que era contrabando e por isso era obrigatório os vezeiros andarem sempre com a lata…eu tinha 6 anos ou 7 e lembro-me porque essa lata durou até ao 25 de Abril, só após a revolução é que essa lata deixou de existir, deixou de ser obrigatório o acompanhamento das guias com os animais (Alcides) 



Foi um longo dia. E esta semana não vai ser nada fácil. Começámos com vacas e vamos acabar com abelhas :)

TERRENO É ISTO

Acordar às 3.00H para ir ver as vacas ao monte :)

domingo, 7 de agosto de 2011

PASTA


Duas mãos cheias de fusilli, um queijo mozzarela de búfala, um molho de espargos verdes, tomate cereja biológico produzido em Soutelinho da Raia. Para temperar, uma mistura de ervas aromáticas: manjericão, coentros e cebolinho. Flor de sal, azeite e sumo de limão. Não é preciso complicar muito para comer bem.

sábado, 6 de agosto de 2011

NÉCTAR

Duas cenouras, uma laranja, um limão. Açúcar de côco e mel de urze. E água. Não a da chuva, embora a chuva caísse com a intensidade suficiente para encher com a rapidez necessária um dos frascos a servir de copo.
Como se, todas as manhãs, eu fizesse de conta que consigo colocar dentro do copo um pouco de sol. Com ou sem chuva a molhar-me o rosto. Porque não faz muito sentido deixar que a chuva caia sem lhe experimentar o toque escorregadio. Uma e outra vez. Porque é sempre diferente.


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Sou uma antropóloga que só pensa em comida...
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