sexta-feira, 19 de agosto de 2011

BICAS E FORMAS DE MANTEIGA EM SALTO

D. Rosinha do Jorge. Abriu-me a porta de casa a sorrir como se estivesse a receber uma velha amiga. Passámos por uma imensa divisão em pedra onde cheirava a alfazema, atravessámos a cozinha e fomos conversar para um pequeno jardim silencioso.  Sob uma imensa figueira carregada de frutos maduros, que teimavam em cair a intervalos certos, D. Rosinha do Jorge explicou-me como é que aprendeu a fazer bicas de manteiga com a mãe.
Mas só as começou a fazer quando se casou. A nata, obtida a partir do leite das vacas que tinham em casa, era deitada na bilha e batida à mão. O tempo que demorava o processo dependia da temperatura. Uma temperatura muito elevada ou muito baixa pode arruinar todo o processo.


Hoje, o processo é feito com natas pasteurizadas porque já não há vacas em casa que possam fornecer o leite. As mulheres hoje também não querem aprender a tirar o leite às vacas.

Ao contrário da mãe que vendia a manteiga, D. Rosinha faz para consumo da casa e para oferecer a familiares, amigos e vizinhos. Por vezes, ainda usa a forma para marcar as bicas que faz. E que boa que é aquela manteiga :)

COMIDAS DA MALHADA

Tinha o corpo esguio e movia-se com agilidade silenciosa entre os participantes que, a brincar, já tinham reclamado por comida. Carregava, sobre uma rodilha grossa, um cesto com comida para servir aos que malhavam e a todos os que se achegassem para partilhar do mata-bicho.


Estendeu a toalha branca, destapou o cesto e de lá tirou malgas, copos e travessas compostas de fatias de queijo e de presunto. E das mãos esguias caíram, de uma forma etérea, fatias de pão. Como se ela estivesse a alimentar os filhos e não os estranhos que se achegavam junto da toalha branca.


Forças retemperadas com vinho, pão, queijo e presunto, voltou-se a ouvir o som dos malhos a cair sobre o centeio. Não se cantou. Mas, na véspera, já D. Teresa me tinha ensinado a letra:

Vamos para a eira malhar
Bater com o malho no chão
Temos que bater bem duro
Senão, não sai o grão
Nós andamos a malhar
Malhamos às carreirinhas
Temos que voltar atrás
Para malhar as carreirinhas
Espalha o colmo, espalha o colmo
Espanha o colmo espalhadinho
Lá vem o colmador
Para ir colmar o moinho


MEIAS DAS PERNAS





Enquanto faço uma pausa no infindável trabalho de transcrição das entrevistas - trabalho acumulado devido aos problemas no pc - sento-me nas escadas, a esta hora aquecidas pelo sol em trajeto descendente, e contemplo as cinco pequenas agulhas. A sexta está enfiada no trabalho de crochet e a substituir a agulha de metal e plástico.
As escadas aqui de casa são um bom lugar para reflexões. Serenas ou vulcânicas. Imagino, a partir das histórias que me vão contando, como seria há muito tempo. Pares de mãos de meninas, raparigas, mulheres e velhas a fazerem muitas meias de lã ou de algodão com estas agulhas. Em silêncio, sentadas em escadas aquecidas pelo sol, como estas aqui de casa, ou tagarelando umas com as outras.
Na quarta-feira fui a casa do sr. Manuel Chaves, de Gralhas, para agendar as filmagens para o dia seguinte. Na altura, mostrou-me um par  de agulhas (um par tanto podem ser duas como seis) para fazer meias. Umas, já envernizadas, vieram logo comigo. No dia seguinte, ontem, e na companhia da Rosa, esperavam-nos novas surpresas em casa dele.

As agulhas feitas de propósito para nós são de urze. Urze que ele recolhe ou na Serra da Lagoa ou na Serra do Larouco: Para onde vou e que às vezes veja que me agrada, já trago.
Mas as primeiras agulhas que fez na vida não foram de madeira, mas sim de metal, feitas a partir das varetas dos guarda-chuvas, quando estava emigrado em França: As primeiras que fiz foi as de metal, que a minha senhora lhe mostrou ontem. Já fiz aqui na aldeia, para muitas raparigas, elas conhecem-se, são todas amarelinhas. De madeira só fiz agora. De madeira nunca tinha feito. As meias aqui é tudo feito com as de metal

E como falar de agulhas é falar de meias, o sr. Manuel lembrou-se de nos mostrar aquilo que ele chama as meias das pernas, feitas para livrar a água das pernas. Estas, que foram feitas pela mãe há mais de 50 anos, vestia-as a gente aqui na perna, uma em cada perna, claro, e punha-lhes umas botas. Ou uns socos, havia uns socos, não eram botas, eram socos.Antes de virem as galochas usávamos isto. Depois vieram as galochas e já não andava tanto com isto.  Atava com um cordão ou baraça que estão aqui.  Este era para a gente prender aqui em cima na presilha ou no cinto e este era aqui de volta da perna. Era por fora das calças que se punham. E depois botava a gente uma croça. E depois punha a gente uma capa por cima. Eu tenho capa e croça. Era para não entrar a água aqui nos ombros. Os invernos eram muito grandes, eram medonhos. Tínhamos aqui neve uns meses diária.

E é isto que o terreno tem de bom. Cada dia, cada casa, cada pessoa tem sempre alguma coisa de novo para nós aprendermos. E tenho aprendido tanto por aqui :)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Afinal, era só cotão dentro do pc. O blogue segue dentro de momentos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

CRASH TECNOLÓGICO

Devido a um já previsível crash tecnológico, o blogue vai estar parado nos próximos dias. Até já.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

MALHADAS




A propósito da segada e da malhada realizadas em Paredes do Rio,  tinha planeado aproveitar o post de hoje para falar sobre a folclorização da cultura. E também sobre as turistificações do património. E da falta de estratégia que reside em pensar-se que o croceiro não vende croças porque ninguém apoia o croceiro. Na verdade, o croceiro não vende croças porque as croças deixaram de se usar. É o que dá concentrar as atenções no produto em vez de valorizar as pessoas, o saber-fazer e o valor acrescentado que resulta da adaptação dos materiais e das técnicas tradicionais a novos conceitos de design.
Mas como o meu programa de tratamento de imagem ACDSee bloqueou (e o meu pc agora passa o tempo a desligar-se) e estou aqui às voltas com o Olympus Master, que é tão intuitivo como uma nave espacial para um Cro-Magnon, desisti e vou passar a ferro.

sábado, 13 de agosto de 2011

NÉCTAR VITAL



Uma beterraba, duas laranjas, um quarto de uma melancia pequena e mel de rosmaninho oferecido ontem pelo Amadeu. Para celebrar a vida, num dia marcado pela memória da morte.

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Sou uma antropóloga que só pensa em comida...
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