sexta-feira, 9 de setembro de 2011

DOS ANIMAIS DA VILA E DO MONTE

Em maio para urdume, em setembro para teçume. Há dois novos cordeirinhos no rebanho de Benta, desde a última vez que a visitei. Nuvens branquinhas e frágeis que dão vontade de pegar e encher de mimos.
Nos terrenos da casa de Benta não há doninhas, os "bitchos" que picavam os anhos quando se levavam as ovelhas para o monte. As 70 ovelhas que havia em casa dos pais de Benta. Mas havia maneiras de afastar os "bitchos":
Punha-se a capa por cima da burra da caldeira, com uma varinha por dentro e depois apanhava aquele fumo e calor. Há um bitcho que pica os anhos. Com aquele fumo a gente ia para o monte, e a doninha não nos bicava. Afastava o bitcho.
Para a semana há tosquia. Se não chover porque, com a lã molhada, não há tesoura que funcione.



Hoje, já não me estranharam. Deixaram-me aproximar o suficiente para lhes tocar e às crias. Assim, demoradamente. Meigas e doces. As orelhas a revirar consoante o tom de voz e as festas dadas no pescoço e na barriga. E quando largam serenamente pela serra acima a estalar a vegetação e o som cavo das patas a bater na terra dá vontade de lhes seguir os passos...um dia vou por lá.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

ALMAS DA CABREIRA

Conheci-o há um par de semanas. Tem uma vida cheia. Fez ontem 82. Vou meter os cavalos a uma tapada fechada, disse-me quando cheguei ao pé dele, já o sol se punha. Posso ir? Pode, venha. O Jaca, o Serra da Estrela veio a pular ao nosso lado.

Andei 9 anos na Serra da Cabreira a guardar as vacas. Botavam 200 vacas, 250 vacas. Ao fim de 3 meses descia e ia receber a maquia. Tinha 19 anos quando comecei. Não tinha vacas, só ia ganhar. Era o tempo da fome. Há 50 e tal anos era a fome. Agora tenho 6 cavalos. Fugiu-me um atrás das éguas. Estão 3 para montar, tenho arreios. Mas tenho muita idade. Tenho medo a cair. Aquela é garrana pura. Esta pequenina é que é linda. Coisa mais linda. Garrana pura. Têm a cabeça pequenina. Tive cavalos a vida toda, mas para me entreter só há 8 anos. Fugiu-me um cavalo esta noite. Cheira-lhe a égua a quilómetros e vai...


Manuel Baqueiro gosta da serra, dos cavalos e das pessoas. Por esta ordem. Lá terá as suas razões...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

TORRE DO BOI EM TRAVASSOS DO RIO

Uma passagem, vinda de outras paragens, por Travassos do Rio resultou numa breve conversa com o sr. Mário Bento sobre a Torre do Boi e a vezeira. Na hora em que as muitas dezenas de vacas se moviam pelas ruas da aldeia. Agora já não há vezeira. É, somente, uma memória do passado. Permanece, no entanto, a Torre do Boi para lembrar de um tempo em que o desempenho de um boi orgulhou toda a aldeia.

Andavam à roda. Consoante o número de cabeças. Se tivesse dez, ia um dia. Se tivesse vinte, ia dois dias. Andavam as vacas. Em maio botavam-se para lá para a serra. Estava lá sempre um homem, um vezeireiro. Estão para lá as cabanas, parece que vão ser reconstruídas, cobertas com torrões, gesta. E o vezeireiro acampanhava.  Esta torre foi feita com um prémio de um dos touros da aldeia. E ali está a cabeça do touro.



segunda-feira, 5 de setembro de 2011

EM NEGRÕES SEM HISTÓRIAS

Viajámos hoje, a câmara-woman e eu, por uma parte do concelho com o objetivo de recolher imagens que venham a integrar o documentário que, junto com os textos etnográficos, constituirá o output deste projeto. Um trabalho a que vamos dedicar um dia por semana nas próximas semanas. No inverno, quando vier a neve, recolheremos novas imagens dos mesmos lugares.
Por agora, apesar de já se sentir um friozinho que obriga a usar agasalho mesmo nas horas de maior calor, aproveitam-se as últimas semanas de tempo razoável para lavar e secar ao sol os têxteis da casa. Como vimos hoje, em Negrões, junto a um dos tanques públicos.
Procurei, junto das poucas pessoas que encontrei nas ruas da aldeia, indicação sobre a(s?) dona(s?) das mantelas e dos tapetes expostos. Mas, infelizmente, desta vez não havia ninguém para me contar as histórias daquelas peças. E, uma história, faz-nos ter uma perspetiva completamente diferente das coisas, não faz?




Parece que terei de voltar, um dia destes, para buscar essas histórias. Às vezes, as pessoas acham que só têm trapos em casa. Mas quando lhes pedimos as histórias desses trapos, quando alguém se interessa por aquilo que as pessoas julgam, no seu isolamento e solidão, ser irrelevante, as suas memórias são resgatadas para o presente e começam a valorizar coisas que estavam esquecidas ou eram consideradas menores. Mas, mais importante, começam a valorizar os seus saberes. Começam a valorizar-se a si mesmas.
E é, também por isso, que eu gosto de estar no terreno.

sábado, 3 de setembro de 2011

DOS PASSEIOS MATINAIS


Respiro o ar frio. Colho amoras.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

CÉU E TERRA.



Há pouco, no meu passeio diário (umas vezes quase de madrugada, outras ao entardecer),  depois daquele momento de silêncio que sempre tenho junto à linha de água da albufeira dos Pisões, encontrei as escusa-merendas.
O Alcides, quando fomos ver do gado nos baldios da aldeia de Fafião, foi a primeira pessoa a mostrar-me estas flores.
Escusa merendas, os antigos queriam dizer que quando as flores nascessem os dias estavam a ser pequenos e não era necessário merenda. Porque, antigamente, os pastores chamavam jantar ao que nós agora chamamos almoço. Então eles jantavam e levavam também a saca com a merenda para o monte. Mas quando começavam a nascer estas flores, era porque os dias estavam a ficar mais pequenos e já não era preciso levar a merenda para o monte. Só jantavam e ceavam. A ceia deles é o nosso jantar de agora (Alcides)
Os dias estão a ficar mais pequenos. O entardecer é cada vez mais frio. E apetece mesmo enroscar-me no sofá com aquela maravilhosa manta de lã que está à venda na loja do Ecomuseu :)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

SABÃO

Entrevistei-a poucos dias depois de ter chegado a Montalegre. Ficámos, na altura, de agendar nova entrevista e filmá-la a fazer o sabão medicinal. Mas depois foi-se adiando, por circunstâncias da vida dela. E continua a adiar-se. O terreno tem destas coisas. De não ser possível determinarmos quando é que as pessoas nos vão ceder o seu tempo.
Reencontrei-a no Congresso de Vilar de Perdizes. Lá estava ela com o seu sabão medicinal. Fez uma nova remessa e não filmámos. Hum. Vou ter de insistir. Não quero perder este registo. E tenho ainda tanta coisa para lhe perguntar.

Um sabão que é feito de coisas simples. Mas impróprio para vegans. Banha de porco, soda cáustica, água e ervas do monte.

Antes de termos a formação das plantas aromáticas, eu já sabia fazer sabão. Aprendi com os nossos mais antigos. Sabão de lavar a roupa. Antigamente, para o sabão da roupa servia tudo: a gordura do chouriço frito, o azeite frito, queimado, guardava-se tudo e aquilo transformava-se no sabão. Agora não. Agora só faço com banha de porco. No dia da matança dos meus porcos guardo. E das matanças das pessoas minhas amigas dão-me, na hora exata, a gordura do porco. Não pode ser de borrego, nem de vitela.
Para fazer o sabão uso 4 ervas: malvas, folha da nogueira, os milfolhos e as maravilhas. As folhas da nogueira são boas para as infeções, as malvas são boas para fazer lavagens, o milfolho para as varizes. São ervas contra alergias, feridas. O sabão pode ter duas cores. As pessoas perguntam por que há um que é tão escuro e o mais claro. Tenho de explicar. A planta que faz mais escuro o sabão é a folha da nogueira e basta estar mais atempada a folha. Se for a folha da nogueira mais atempada, mais dura, mais rija, fica mais escuro. É só essa a diferença, mais nada.
O sabão até nem cheira a nada, vá. Mas depois como leva a gordura fica tipo cremoso, é mais macio. Há pessoas que têm muitas alergias e é muito bom, já tiveram sucesso. Olhe é feio, nem o sei cortar bem, nem faço com regras...mas é muito bom, muito bom. (Maria das Dores, Vilar de Perdizes)



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Sou uma antropóloga que só pensa em comida...
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