terça-feira, 20 de setembro de 2011

SCONES SEM GLÚTEN

A casa onde vivo não tem alpendre. Se tivesse, haveria dois cadeirões velhos de couro gasto que eu cobriria com duas mantelas de trapos, uma pequena mesa que eu pintaria de verde e enfeitaria com muitas garrafas de vidro cheias de flores que, todas as manhãs, apanharia no campo.
E, no final daqueles dias passados a transcrever entrevistas, eu iria para o alpendre, sentar-me-ia num dos cadeirões e ficaria a olhar o pôr do sol. Na mesa pintada de verde, para além das muitas garrafas de vidro coloridas com flores, eu teria uma taça com scones acabados de sair do forno e uma chávena grande com uma infusão de funcho.



A receita foi adaptada daqui. Misturei de farinha de arroz, farinha de milho e maizena. Também substitui o açúcar por mel de rosmaninho do Amadeu. Como a farinha de milho e de arroz demora mais tempo a absorver o líquido, convém esperar um pouco antes de concluir que é necessário adicionar mais farinha.

DE SIRVOZELO ÀS MARGENS DA BARRAGEM DO ALTO CÁVADO

Estive em Sirvozelo no sábado e descobri uma das mais belas aldeias de Montalegre. Não é daqueles lugares que são bons apenas para passar uns dias. É um pedaço de paraíso onde apetece viver. Hoje, voltei lá e fiquei ainda mais encantada. Se cá ficasse a viver seria uma das aldeias a considerar. Um dos lugares mágicos fica a cerca de 200 metros do centro da aldeia. Um pasto em frente às escarpas do Gerês. Como se fosse uma plateia para a natureza em estado bruto.


De volta à vila, as árvores de fogo a anunciarem o outono, num dia que amanheceu frio e que já pede lã no corpo.

sábado, 17 de setembro de 2011

LODEIRO DE ARQUE

DA SEARA ÀS MEMÓRIAS DA BORRALHA

O terreno raramente é aquilo que nós planeamos. Ontem, tínhamos programado filmar a D. Benta a tosquiar as ovelhas, mas poucas horas antes de o fazermos ela teve de desmarcar. Continuámos, então, a recolha de imagens pela freguesia de Salto visitando algumas aldeias pela primeira vez e revisitando alguns dos lugares onde já tínhamos estado.
À Seara já tínhamos ido uma vez, a  convite do sr. Francisco de Tabuadela. Era um dia de algum nevoeiro e aquele lugar revelou-se mágico. Voltámos lá ontem e reencontrámos duas das pessoas com quem já tínhamos estado à conversa: D. Cândida e o seu filho Fernando. Estava sol, mas a aldeia manteve o seu encanto. Fomos com os dois botar as vacas noutro terreno e, na conversa, D. Cândida acabou por me dizer que tinha vivido um ano nas Minas da Borralha acompanhando o marido que lá trabalhava. Não gostou de lá ter estado.
Nas Minas, as mulheres chamavam curtas e compridas umas às outras e tinham de pagar multa na GNR e gastavam o dinheiro que os homens andavam a ganhar lá em baixo! O ordenado eram 4 contos e meio. Ó p... toca, canta e dança que o corno está na França!
Nas Minas preparava a merenda para o marido comer lá em baixo. Bacalhau frito num pão. Era o bocadilho. O almoço tomava sempre em casa. Quando entrava à 1h já estava almoçado.
Não tem saudades desse tempo, longe da natureza idílica da aldeia. Mesmo que na aldeia, há muitos anos, apenas ganhasse 12 escudos por mês a plantar pinheiros na serra. E só ganhasse uma broa quando amassava o pão para quem tinha forno. Uma broa é muito pouco.



No pólo de Salto do Ecomuseu de Barroso guardam-se algumas das memórias das Minas da Borralha. Como as senhas que os trabalhadores usavam para tomar as refeições e a travessa utilizada para servir bacalhau numa pensão que lá existia . Mas há ainda um mundo de recordações e de objetos a resgatar. Para que a comunidade não perca mais uma memória.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

BORRALHA

Acordar às 6.35h. Assim tenho tempo, antes de arrancar para Salto, para ir até à barragem dar o meu passeio matinal. Aqui, para se chegar até à água, basta descer o caminho pejado de castanheiros. E silvas que estão carregadinhas de amoras. Hoje, não valia a pena apanhá-las pois ontem, dos campos do sr. Jaime, trouxe quase 1/2 quilo delas.
Sumo de cenoura e laranja e uma taça com amoras, pólen, mel e mascarpone. Porque o dia ia ser longo.


O sr. Rita foi o químico das Minas da Borralha, em Salto. Tem 75 anos e um sentido de justiça e de memória que são raros de encontrar. Estive quase 4h à conversa com ele. Com direito a uma visita ao seu museu privado. Onde guarda objetos e documentos únicos.
Já tinha tido, com o sr. Manuel Baqueiro, algumas informações sobre o que os mineiros levavam para o interior das minas para comer, mas ontem fiquei a saber muito mais.

Por exemplo, que a primeira estrutura de fornecimento de comida que surgiu nas Minas foi a padaria (eventualmente, em 1912) que recebia também farinha vinda de Paris e onde se vendiam os bijus, as bicas, as sêmeas e, mais tarde, os cacetes. Os operários compravam o pão com senhas, como as que aparecem numa das imagens.
Em 1938 formavam-se bichas para receber o pão, eu tenho ali senhas. O pão servia para os operários e contavam quantos filhos tinham para receberem as senhas. Também se podia comprar. Eu cheguei a levar pão para uns senhores alentejanos que trabalhavam aqui na barragem. Mas os lavradores daqui coziam pão milho e pão centeio nos fornos em pedra. Mas não se falava em trigo nesse tempo. Trigo só na padaria.

Mais tarde, instala-se uma mercearia onde os trabalhadores das Minas se podiam abastecer. Não havia mercearias aqui em Salto. Não havia nada. Vinham coisas de Paris e tudo. Tinha batata, tinha feijão, bacalhau, tinha carnes.

Será no início dos anos 1948/49 que o refeitório começa a funcionar. Para todos os funcionários e suas famílias.  Chamavam a pensão, que era de pensar o pessoal.
Ao pequeno-almoço os encarregados das Minas comiam leite com cevada e pão com manteiga. As bicas de manteiga trazidas em cestos e toalhas de linho branco. Os operários comiam o que se chamava água quente ou água de cebola, uma sopa que era feita com água, cebola, sal e azeite e comia-se com trigo. Servida em pratos de alumínio.
Os almoços servidos no refeitório foi pouco tempo. Foi enquanto não havia alternativas para os trabalhadores. E porque havia muitos homens solteiros. Uma sopa com massa de terceira. Tinha legumes, aqui havia muita coisa. E azeite. No princípio era só a sopa. Era bom. Depois é que era uma sopa e um prato. Para dentro das Minas levavam frango, sardinha, arroz ou massa porque a batata ficava ensebada e a comida que sabe melhor em frio é a massa e o arroz. A batata é boa quente.  Para dentro das minhas levavam presunto, chouriço, uma garrafa pequenina de vinho, de cerveja. À noite eram os capatazes que comiam na pensão.



E, no final do dia, ainda deu para rever o sr. Manuel Baqueiro, o Jaca e um vitelinho nascido umas horas antes.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

APANHA DA FRUTA

Ontem voltei a casa do sr. Jaime de Solveira. Morreu-lhe a mulher há umas semanas. Estava a construir um semeador de batatas quando chegámos. A esforçar-se, nos seus 83 anos, por se manter ocupado, para não estar sempre a pensar na sua santa. Chorou, desabafou e acalmou-se. E depois foi mostrar um burrinho, ainda sem nome, que recolheu há poucos dias. Estava abandonado junto à estrada e ou foi atropelado ou levou uma tremenda pancada no focinho, pois tem os maxilares desalinhados e aquilo que parecem ser dois grandes calos resultantes de duas fraturas mal consolidadas. É um doce. Com um olhar infinitamente triste.
Hoje, a convite do sr. Jaime, voltámos a Solveira para apanhar fruta. Aproveitei para levar umas cenouras para o bichinho e para a égua Rola.
Havia muitas maçãs para apanhar. Mas eu perdi-me foi com as amoras :) Que boas, acabadas de colher das silvas!


Claro que aproveitei uma pequena parte delas para a minha salada do almoço. Tomate, pepino, endívias e amoras. E um molho, que sempre faço e fica sempre bem, com azeite, sumo de limão, mel de rosmaninho e flor de sal. E à tarde fui entrevistar uma cozinheira de mão cheia :)

sábado, 10 de setembro de 2011

DO MILHO E DAS FILHOSES


D. Lúcia da Casa do Alípio. Tem os olhos cor de água e rosto de menina. Duas horas de conversa. A primeira de muitas que se seguirão. Sobre as filhoses. Lêvedas. De sangue. De orelheira. Também as há feitas com o colostro das vacas paridas. Aprendeu com a mãe. Mas, das seis irmãs - e eram doze filhos - ela parece ser aquela que mais gosto tem em fazer as filhoses.

Toda a vida se fizeram filhoses em casa da minha mãe. Aprendi com ela quando era pequenina. Ela gostava muito de fazer. Era muito filhoeira porque o meu pai gostava muito de filhoses. E ela fazia filhoses de tudo. Fazia todo o ano. Mas mais de inverno do que de verão.
As lêvedas levam farinha milha, triga para ligar, ovos, fermento, sal e água. Milho grosso, moído no moinho de água, muito bem moidinho. Antes, era o moinho dos vizinhos e nós pedíamos para ir moer. Já não trabalha. Tínhamos outro moinho mas levava horas para lá chegar com o pão à cabeça. Eu há uns anos comprei um moinho elétrico. É muito jeitozinho. Naquele tempo 58 contos. Não é grande nem pequeno. Mói devagarinho porque eu quero muito bem moidinho. Se for botado à fazenda, pode ser moído à vontade, se for para fazer o pão, as filhoses, deixo cair pouquinho e ele mói muito bem. São duas mós tal e qual de pedra como os da água. Nunca fez falta picá-las, nunca fez falta nada, já rompeu a cinta da roda de andar de volta, também já está farto de moer e nunca teve nenhuma avaria e mói que é uma maravilha. O milho é plantado por mim. Não tem qualidade de adubo, é tudo só o mato dos animais, é tudo natural, em nossa casa não pomos remédios, nem produtos. Os ovos são tudo caseiros. Um bocadinho de fermento. Antigamente usava-se o fermento do pão que amassavam em casa. Ainda hoje guardo fermento para cozer. Nunca se me estragou um fermento. Mas agora quando faço filhoses não boto desse fermento. Boto da padaria. O fermento de padeiro. Naquele tempo não havia triga para ligar, nem nada se falava, botava um bocadinho de centeia, para fazer a liga.
Boto primeiro a água morna para derreter o fermento e o sal. Tenho os ovos já batidos, duas dúzias ou três, os que forem. Pego no coador para coar os ovos porque gosto de os coar. Quantos mais melhor. Mais fofas ficam, mais amarelinhas, mais bonitas. E depois ponho a farinha milha à minha beira e à triga. Tudo ali à minha beira.
Elas são batidas só com um braço. Quando mais ficarem amassadas, melhor. Depois ficam ali a levedar. Faço a olho. Às vezes vão lá as mulheres e querem que eu diga quantos quilos botas de farinha, quantos ovos botas e eu digo que nunca pesei nada. Eu estou-as a fazer e vejo o que elas precisam.
Unto a sertã com um pinzelo. É um pano qualquer, mas eu escolho sempre um paninho que seja em algodão. Disto de fibras e destas coisas, não. Antigamente a minha mãe ainda lhes botava umas pinguinhas de banha. A outra gente era tudo só com banha dos porcos, mas a minha mãe, já naquele tempo misturava um bocado de azeite que não havia óleo. Azeite e banha. Hoje é só com óleo. Uso ali uma panelinha à minha beira com o óleo, que aquilo não gasta nada, gasta muito pouquinho e vou mergulhando o pinzelo e unto a sertã. E metemos a sertã à lareira e depois metemos as filhoses. Já está tão velhinha e foi o meu pai que a mandou fazer. Já tem muitos anos. Muitos anos. E faço com lenha, uma lenhinha muito boa, uma fogueira que tem que tem de ser uma fogueira muito certa, não pode ser grande nem pequena, ali muito certinha. Mas as minhas irmãs já preparam a sertã para fazer em cima do fogão. Já não têm pernas, agora está tudo muito mais moderno. Eu se fizer é na lareira. Dizem que até têm outro paladar, que sabem melhor.
As filhoses estão a levedar uma hora ou duas ou três. Logo que se dizem lêvedas, a gente começa a fazer.
As lêvedas faziam-se quando apetecia. A minha mãe era quando lhe apetecesse, fazia ali umas pouquinhas ali num instante. Para o sábado filhoeiro, para a segada e para a malhada, para a sementeira das batatas mas era a muito custo, porque era muito calor. Ela fazia-as de noite.
Ia um cesto de filhoses para a eira. Eram comidas aqui na eira. A minha mãe trazia um cesto de filhoses. Uma toalha de linho de volta do cesto e as filhoses ali no cesto e andava-se com o cesto à roda. Eu andava com o cesto a dar as filhoses aos trabalhadores. Eu com o cesto das filhoses, uma irmã minha com uma grande travessa de bacalhau, uma posta de bacalhau em cima da filhó, a caneca do vinho a dar-lhes vinho. Era dada ao fim. Nós tínhamos uma malhada pequenina e se calhar íamos malhar atrás de outro e o outro acabava ao meio-dia e dava o jantar. Nós íamos malhar atrás daquele e acabávamos à merenda. Filhoses, bacalhau frito e vinho e depois fritas. São aquelas…hoje chamamos rabanadas.
As filhoses de sangue eram na matança, nós matávamos os porcos no sábado, o porco desmanchava-se na segunda, arrumava-se e na terça já se faziam, não se guardava o sangue para velho. Era no tempo frio, nunca se estragam as coisas. Eram feitas com o sangue de dentro. O sangue de fora é quando se espeta a faca ao porco e ele sangra e aquele sangue vai coalhar, fica às postas e vai cozer para dentro de uma caldeira. Esse sangue era comido, chamavam-lhe o sarrabulho. Chamavam-lhe o sangue de fora. E o sangue de dentro, depois de abrir os porcos, aquilo vai correndo das outras carnes e depois aquele sangue era apanhado para uma panela e era coado, ficava ali naquela panela e depois a minha mãe coava-o para outra e botava-lhe farinha milha na mesma e fazia filhoses. Mas sem ovos. Antigamente ainda botavam um copo de água, que era para não ficarem tão densas, tão escuras. Ficam da cor do sangue. Há muito tempo que não faço. Aproveito o sangue para outras coisas, sangueira.
As filhoses de orelheira são feitas no Entrudo, com a água de cozer os pés e a orelheira. São feitas com farinha milha e bota-se três ou quatro ovos ou cinco que era para elas lidarem melhor. Quando vou fazer as filhoses de orelheira tenho de chamar a minha irmã mais velha porque se ela soubesse que eu as fazia e não dizia nada, ui meu Deus!
A minha mãe mandava-me dar as filhoses às vizinhas, àquelas pessoas que não faziam e que nos ajudavam. Tinha uns pratinhos e punha um paninho e levava. Ainda hoje se fizer despacho-as para os vizinhos. Eles são de mais idade, não fazem. Toda a pessoa gosta. Eu não sou senhora de fazer filhós nem de cozer pão milho porque parece que lhes chega o cheiro. As raparigas não querem saber e haviam de aprender a fazer filhoses e outras coisas. Sim, eu ensino-a a fazer.
:)

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Sou uma antropóloga que só pensa em comida...
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