terça-feira, 15 de novembro de 2011

A MANTEIGA DA D. ROSINHA

A temperatura ambiente e da água que se utiliza para lavar a manteiga é a variável mais difícil de controlar. Em casa da D. Eufrásia, a D. Rosinha combinou os saberes herdados da mãe com a tecnologia e a matéria prima atuais.
Com natas compradas, usou-se a varinha mágica até apartar a gordura do soro. Juntou-se água da fonte e terminou-se esta operação de bater a manteiga usando a mão em gestos precisos.



Depois, para fazer a bica, bateu-se a bola de manteiga, primeiro na bacia e depois no prato. Bate-se de maneira a formar quatro lados. Aguçam-se, de seguida, as extremidades da bica.


Finalmente, com a forma de madeira molhada, para não se agarrar à manteiga, marca-se a bica fazendo pressão nas extremidades. Pode comer-se assim. Mas se for polvilhada com uns grãos de flor de sal também fica boa.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

CESTEIRO JOAQUIM

Foi uma visita não programada. Um por acaso ao princípio da noite que durou o tempo de uma boa conversa enquanto chovia e arrefecia.
O sr. Joaquim tinha o cesto ideal para eu fazer piqueniques. Entrei na oficina, pedi-lhe permissão para ir até lá ao fundo e escolhi-o. Perguntou-me se não queria ver outros. Não, não vale a pena. Eu gosto deste.
Respondeu-me que o amor também é assim: quando se encontra a pessoa certa não vale a pena procurar mais.
Depois, ainda nos contou muitas histórias da vida e mostrou-nos o livro das encomendas. Ainda há cá cesteiros. Ao contrário do que nos contam nas lojas das cidades enquanto nos tentam convencer que ficamos melhor servidos com cestos orientais.

sábado, 12 de novembro de 2011

HOME MADE

Não sou prendada. Aprendi o básico do mais básico do crochet a partir deste livro. Se os miúdos conseguiam, eu também havia de conseguir. O suficiente, contudo, para substituir algumas coisas que se compram. Como as esponjas (naturais ou artificiais) para tomar banho.
A ideia não tem nada de original e a lã foi comprada aqui há uns dois anos.
Montei 40 pontos e depois fui tricotando até ter um quadrado. Podem ser só 20 pontos. A vantagem dos 40 é que permite amarfanhar o pano criando maior volume. A lã peruana é suave e sabe bem na pele.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A CROÇA I

A croça nasce deste botão. Bom, na verdade, a croça nasce deste botão e das mãos sábias do sr. Constantino. Tudo começa com este botão. Bom, na verdade, tudo começou com a apanha dos juncos. Passaram-se os meses, os juncos secaram, veio o tempo molhado e começaram-se a fazer as croças. Já não são para os pastores que agora são poucos e usam oleados. São para ranchos ou para compor a decoração de restaurantes típicos. Estas, que agora se estão a fazer, até são todas para levar para Espanha.
Pegam-se nuns quantos juncos (estes que se mostram na primeira imagem foram apenas para exemplificar; são mais que a trança quer-se grossa) e colocam-se lado a lado.
Depois, com os dedos indicadores e polegares de ambas as mãos o mais juntos possível, torcem-se os juncos em direções opostas a partir de um ponto central e o mais apertado que se conseguir.
Bastam apenas algumas voltas. As suficientes para se prender, com os dentes, os juncos já torcidos, nesse ponto central, e começar a torcer os dois lados um sobre o outro, ao mesmo tempo que se continua a torcer cada lado sobre si mesmo.
Esta explicação é clara? Eu tive que pedir ao sr. Constantino para repetir a operação porque não percebi os gestos logo à primeira...
Depois, ele também me explicou como se iam entrançando novos juncos na trança quando algum se partia ou era preciso aumentar o comprimento.
Na ponta onde se iniciou o torcimento, dá-se depois um nó. Esse nó é o botão da croça que vai permitir mantê-la fechada. Na outra ponta está a casa onde entra o botão. Mas ainda não cheguei aí!

Botão da croça

Há quatro instrumentos/equipamentos que são indispensáveis para se construir uma croça (para além da mascota que é usada para bater os juncos no dia em que são colhidos): os pentes, a fita métrica, a tesoura e a tábua de tabopan.
O sr. Contantino tem dois pentes para pentear a croça que foram feitos por ele. Um com os pregos mais espaçados; o outro com uma maior densidade de pregos. Aquele que tem os pregos mais espaçados é usado nas primeiras penteadelas; o outro é usado depois para um acabamento mais fino. Vai-os consertando à medida que os pregos se degradam.


A tábua de tabopan facilita o trabalho de escovagem e de medição das diferentes camadas que compõem uma croça.


Cada camada tem diferentes comprimentos o que resulta de uma lógica que eu ainda não descortinei completamente.  
Mais, de carreira para carreira, de camada para camada, o número de juncos que se entrançam também aumenta o que permite, naturalmente, que a capa ganhe amplitude.
A capa tem, também, os juncos de fora, que são os que se penteiam e os juncos de dentro, o forro, que estão presos uns aos outros e que não são penteados.
No interior da capa veem-se as tranças da croça (são as verticais, embora na imagem seguinte apareçam na horizontal) a que ele chama a segurança da croça pois permitem que a peça não fique desengonçada. 

Interior da croça


O sr. Constantino diz que eu consigo aprender tudo em 15 minutos. É um otimista. Fazer uma croça parece-me bastante complexo. Não é, apenas, a gestualidade, inerente a cada operação. É toda a lógica de camadas, tranças e comprimentos. Esta foi só a primeira lição.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

TRAVASSOS DO RIO - HISTÓRIAS DE FILHOSES DE VACA PARIDA

Tenho esta vocação voyeurista para carrapitos. A D. Maria dos Anjos estava mesmo sentada à minha frente e eu contemplava-lhe as voltas do cabelo grisalho a lembrar-me o da minha avó Jesuína e o meu há dois anos quando era muito, muito comprido. Depois, distraída, contei carrapitos e cabelos cortados curtos e, debaixo dos lenços, tentei adivinhar quantos pertenceriam à primeira categoria e quantos fariam parte da segunda.
Já à minha beira, a D. Maria dos Anjos, elogiado o carrapito, contou-me que antes de entrar no avião para a Suíça, a máquina apitou. Eram os ganchos de metal no cabelo que lhe seguravam as muitas voltas grisalhas.
Falámos das filhoses. Das que se faziam com o leite das vacas paridas. Nos dois, três primeiros dias, não se aproveitava o leite.
Depois, sim. Um leite gordo, cheio de nata que tornava as filhoses mais saborosas e fáceis de virar na sertã. Nem era preciso juntar ovos, porque os ovos juntam-se para lidar mais facilmente com a massa na sertã.
A farinha milha, que se mói ainda nos moinhos de Travassos do Rio, juntava-se ao leite, mais uma pitada de sal para dar sabor. Uma farinha milha bem moída para fazer filhoses fininhas.
Mário Bento, que se juntou à conversa e com quem eu já me tinha cruzado nas ruas da aldeia há uns meses, também comia as filhoses de leite de vaca parida feitas pela mãe.
Agora, as filhoses fazem-se com farinha triga e leite de pacote comprado no supermercado. Não ficam tão boas e juntam-se uns ovos para se lidar melhor com a massa.
Bastou fazer mais algumas perguntas sobre mungir para 15 minutos depois estarmos a caminho do lameiro onde estavam as onze vacas à espera de recolher às cortes.



E depois acontecem coisas tão extraordinárias como o sr. Mário Bento estar no lameiro a chamar as vacas e ao mesmo tempo a telefonar à mulher para ter uma cafeteira pronta porque quando chegasse queria mostrar às meninas como se faz para tirar o leite às vacas. Vê, não custa nada, dizia, enquanto um dos bezerros desinteressado dos úberes da mãe insistia em sair das cortes para ir correr elas ruas. E esta espuma toda transforma-se em natas.
Devem ser boas. Daqui por umas semanas, quando as águas fizerem os moinhos da aldeia trabalharem a grande velocidade, teremos farinha milha moída bem fina para se fazerem as filhoses.

sábado, 5 de novembro de 2011

BISCOITOS DE MEL

São filhos dos famosos biscoitos de manteiga da minha mãe. Mas, desta vez, substitui o açúcar por mel de eucalipto do Amadeu. Ficaram completamente diferentes dos originais. Talvez porque o açúcar lhes confira a textura crocante que o mel retira. Mesmo assim, são deliciosos.


Ingredientes
250 gramas de farinha
1 colher de chá de fermento Royal
150 gramas de mel
125 gramas de manteiga
1 ovo

Preparação
Misturar a farinha com o fermento. Juntar a manteiga derretida, o mel e o ovo e envolver bem. Se necessário, adicionar mais farinha até que a massa despegue das mãos.
Moldar pequenas bolinhas e levar ao forno a 200º por 10 minutos.

Devem degustar-se, com chá de erva cidreira, enquanto se contempla o pôr do sol em Porto d'Olho.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

TEMPESTADE NA SERRA

A vezeira escangalha-se oficialmente no dia 29 de setembro. Mas se o tempo estiver bom, como esteve este outubro, os animais vão ficando na serra, alimentando-se das ervas que por lá existem. A partir desse dia deixa de ser obrigatório ir ver dos animais todos os dias. Passam os homens, dois a dois, a ir aos baldios uma vez por semana.
Estava combinado com o Alcides irmos na quinta acompanhar a descida do gado. Contudo, como a tempestade apertava e havia o receio que o gado se assustasse e pudesse perder-se e magoar-se, antecipou-se para hoje a descida. Um imprevisto de última hora que me obrigou a ir comprar uma capa de oleado e a ir para a serra sem estar minimamente preparada.
Demorámos, como habitualmente, uma hora a chegar à aldeia de Fafião. Já lá estava o Alcides à nossa espera. Chegaram, entretanto, os outros dois herdeiros, o sr. Augusto e o sr. Domingos, e lá fomos na carrinha do Ecomuseu até onde é possível levar as viaturas. O Alcides e eu fomos na caixa aberta e apanhámos logo uma chuvada. Não fosse a capa de oleado e eu teria ficado ensopada.
Depois, foi começar a subir pelo monte. Foi duro, muito duro. Ainda para mais porque tinha enjoado na viagem de Montalegre para Fafião (ir no banco traseiro a mandar sms e a anotar números de telefone tinha de dar asneira) e tinha outras dores a atrasar-me o passo. Disse-lhes para avançarem porque com as mariolas a marcarem o caminho seria difícil eu perder-me. Mas o nevoeiro estava cerrado, havia alturas em que não se via nada a mais de 10 metros e um dos colegas do Ecomuseu acabou por se perder de nós. Valeram os telemóveis e os gritos de todos. 
Lá continuámos caminho e as minhas galochas acabaram por romper, de modo que quando passávamos nos riachos, a água entrava às golfadas e fiquei com meias e calças encharcadas.
Depois, encontrámos parte dos animais. Faltavam cinco vacas e foi preciso ir em busca delas. O Alcides disse para esperarmos numa das malhadas enquanto os três herdeiros iam procurar o resto dos animais.
Ficai ao pé desta árvore ou da outra, mas não vos afastais mais. Isto significava que estava fora de questão irmos para a cabana do pastor pois esta estava ainda distante e quando eles passassem para baixo com os animais não tinham forma de nos avisar.
Foi o mais difícil. Mais de uma hora à espera. Chuva forte, o corpo a gelar e a doer, nevoeiro cerrado, a tarde a chegar ao fim e a trovoada a rebentar. E os telemóveis a ficarem sem bateria.  



Finalmente lá chegaram. Os animais que vinham com eles estranharam-nos, tal como nos tinham estranhado os restantes que já tínhamos encontrado na subida. Mas não há nada como falar com eles e acabam por sossegar.  
Desde o reencontro, demorámos mais duas horas até chegar à aldeia. Descemos e subimos várias vezes. O que deu tempo para muita conversa com um dos herdeiros, o sr. Domingos.
O sr. Domingos é o chamado elemento do acordo, isto é, o escolhido pelos restantes herdeiros para, entre outras coisas, convocar as reuniões e estabelecer e cobrar multas àqueles que não cumprem as regras da vezeira. Contou-me muitas histórias e quando passámos o rio lembrou-se de um inverno em que teve de botar o baraço aos cornos de uma vaca que já se afogava.

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Sou uma antropóloga que só pensa em comida...
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