sábado, 3 de dezembro de 2011

HAMBÚRGUERS DE FEIJÃO PRETO

Uma das vantagens em viver longe dos grandes centros urbanos é ter menos, muito menos solicitações ao consumo. A desvantagem (pelo menos para mim que só penso em comida...) é ter menos variedade de alimentos à disposição. Produção biológica certificada, então, é quase inexistente. É uma ilusão pensar que no comércio tradicional consigo comprar alimentos produzidos de forma menos agressiva para o ambiente. Comprar localmente não é sinónimo de comprar mais saudável. O ideal é mesmo poder comprar diretamente àqueles que sabemos que não usam venenos. Porque é de veneno que se trata.
Ao mesmo tempo, faço também um esforço para reduzir as embalagens. A ideia não é, somente, reciclar. É diminuir o volume de lixo que despejo no ecoponto.
O feijão preto e as outras leguminosas foram comprados avulso numa loja de comércio tradicional. Andava já há vários dias com a ideia de fazer uns hambúrguers de grão ou de feijão. E combinar texturas mais crocantes e especiarias.



Para oito hambúrguers:
1/2 cebola
1 cenoura
4 dentes de alho
1 colher de chá de cúrcuma
1 colher de chá de cominhos
1 colher de chá de flor de sal
1 bago de piri-piri
1/2 chávena de amêndoa
1/2 chávena de sementes de girassol
2 colheres de sopa de azeite
3 chávenas de feijão preto cozido
1/2 chávena de água de cozer o feijão
1/2 chávena de sêmola de trigo



Usei a Bimby, mas com um bom robot de cozinha devem conseguir-se resultados semelhantes. O feijão foi posto de molho, de véspera, e cozido com uma tira de alga kombu.
Piquei primeiro a cenoura, as amêndoas, as sementes de girassol, a cebola, a cenoura, os alhos e os condimentos. Depois juntei os feijões, a sêmola de milho, a água e o azeite. Eventualmente, poderia ter triturado mais os feijões para os transformar em pasta.
Usei menos água do que aquela que indico na receita. E mais sêmola de milho. Por essa razão, os hambúrguers ficaram quebradiços.
Uma forma de garantir que isso não sucede é aumentar a quantidade de água e deixar repousar uma hora para que a sêmola amoleça.
Moldar oito hambúrguers com as mãos untadas em azeite (ou óleo) e levar ao forno (180º) por meia hora. Como uso uma placa de barro, não foi preciso untar. Se se usar outro material, é conveniente fazê-lo.



Servir com uma boa salada. Bem quentinhos. Mas também são bons frios. Para a próxima experimento com grão.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

DEBAIXO DA TERRA - CENTRAL HIDROELÉTRICA VENDA NOVA III

Por aqui, tanto se sobe aos baldios de Fafião, como se desce às profundezas da terra. A semana passada fiz uma visita noturna aos túneis da Central Hidroelétrica Venda Nova III. Também se pode etnografar o que se passa debaixo da terra. A memória de uma comunidade não se faz, apenas, com o que sucede à superfície.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A CROÇA IV

À quinta entrevista, esclareci termos. Um dos erros que cometemos no terreno é o da antecipação. Às vezes, não vale a pena perguntar o nome das coisas ou sugerir termos quando nenhum nos é dito. Basta esperar que, de uma forma natural, as pessoas refiram as palavras certas. No tempo certo.

Pano - corresponde ao forro da croça, isto é, aos juncos que estão voltados para o interior da croça
Mechas - conjuntos de juncos que vão sendo incorporados, ponto por ponto, na croça
Medas - conjuntos de juncos acabados de serem colhidos no juncal (e atados com os baraços)
Madas - conjuntos mais pequenos de juncos que são delubados e massados
Tranças - correspondem às cordas de segurança
Tranças horizontais - correspondem às cordas que vão atando as mechas de juncos

Na construção da segunda carreira, a croça aumenta 14 pontos e ganha amplitude. A segunda carreira é construída a oito-nove centímetros de distância da primeira carreira. A técnica é a mesma que é utilizada na construção da primeira carreira: o croceiro usa simultaneamente duas mechas e duas tranças horizontais.

Como mostrei no post anterior, na primeira carreira, de três em três pontos faz-se uma trança. Isto significa que entre duas tranças existem dois pontos.
Nesta segunda carreira é preciso aumentar um ponto por cada dois. Deste modo, entre duas tranças, passam a existir três pontos. Na Imagem 1 pode ver-se, claramente, como na primeira carreira os dois pontos passam a três na segunda carreira.

Imagem 1

Para fazer a segunda carreira é necessário, em cada ponto, separar os juncos que formam o pano da croça daqueles que constituem a sua camada exterior (Imagem 2). Apenas aqueles que formam o pano da croça serão entrançados nas tranças horizontais.

Imagem 2

Vamos considerar uma sequência de uma trança e dois pontos (da primeira carreira). Começa por se separar, num ponto, a trança dos juncos que ficarão voltados para o exterior da croça (Imagem 3).

Imagem 3

De seguida, à corda junta-se uma mecha de juncos, ficando os pés dos juncos voltados para cima e as flores dos juncos para baixo (Imagem 4).
 
Imagem 4

Depois, há que torcer as duas tranças horizontais fazendo-as passar (primeiro a da esquerda e depois a da direita sobre a esquerda) por cima do conjunto de juncos formado pela trança e pela mecha de juncos que se juntou à trança. A Imagem 5 mostra esta operação embora não seja executada no ponto da trança.

Imagem 5

A operação seguinte consiste em passar a mecha do ponto anterior torcendo-a sobre si mesma e por trás da mecha do ponto que se está a trabalhar, fazendo-a descer (Imagem 6 e 7).

Imagem 6

(Imagem 7)

Nos dois pontos seguintes da primeira carreira, separar os juncos que constituem o pano daqueles que formam o exterior da croça. Dos juncos que formam o pano da croça, separar em três conjuntos de forma a obter os três pontos da segunda carreira (Imagem 8).

 
 
(Imagem 8)

No primeiro conjunto, juntar uma mecha de juncos (como se fez com o ponto da trança) e repetir as operações, isto é, torcer as duas tranças horizontais fazendo-as passar (primeiro a da esquerda e depois a da direita sobre a esquerda) por cima do conjunto formado pelos juncos correspondentes ao ponto da primeira carreira e à mecha de juncos que se juntou a esse ponto. Depois, passar a mecha do ponto anterior torcendo-a sobre si mesma e por trás da mecha do ponto que se está a trabalhar, fazendo-a descer. Repetir a operação para os dois conjuntos seguintes (Imagens 9 a 12). Assim se transformam dois pontos em três pontos.


Imagem 9

Imagem 10

Imagem 11
 
Imagem 12


sábado, 26 de novembro de 2011

MARMELADA DE FRASCO

A Maria de Salto pediu-me para eu fazer marmelada. A lasanha de espinafres e mozzarella que cozinhei no restaurante dela deve-a ter impressionado. Juntamente com as bolachinhas de manteiga e os brigadeiros de chocolate e amêndoa. E a promessa de um jantar árabe lá no Borda d'Água.
A questão é que eu nunca tinha feito marmelada. Definitivamente, não é dos meus doces favoritos. De modo que tive de combinar telefonemas para a mãe para saber da receita da avó Susana com alguma pesquisa online.
Tinha tantos marmelos para cozer que tive de ir comprar uma panela nova :) Lave-os e cozi-os com casca até ficarem bem moles. Deixei arrefecer, pelei os marmelos e retirei os caroços. 4470 gramas de polme que foram triturados na Bimby.
Depois, fiz a calda com 2682 gramas de açúcar e com 1/3 do peso de açúcar em água, ou seja, 894 gramas. A ideia era atingir o ponto de rebuçado. Nunca me entendi com os pontos de açúcar. Só descobri que o pesa xaropes, que o meu pai me tinha oferecido muitos anos antes, não media a temperatura da calda mas sim a sua densidade quando frequentei um dos muitos cursos livres que fiz na ESHTE.
De modo que perdi a paciência ao fim de meia hora à espera do ponto. Incorporei o polme e estive outra meia hora a mexer a marmelada. Borbulhou tanto que colecionei queimaduras nas mãos. É certo que não ficou com aquela textura que dá para cortar à faca. Mas é a melhor que provei até hoje. Sem desprimor para a da avó Susana. Agora segue toda para a Maria e companhia ;)
A esta marmelada de frasco é melhor mesmo chamá-la de compota de marmelo.



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A CROÇA III

As cordas da croça permitem manter a estabilidade da peça. Na primeira carreira (Imagem 1) as cordas são feitas de três em três pontos. 

Imagem 1

Em cada ponto onde se faz uma corda, esta é executada com os juncos que estão voltados para o interior da croça, ou seja, com aqueles que formam o forro da peça. Como já foi explicado anteriormente, em cada ponto, os juncos são dobrados ao meio: a base do junco fica para o exterior da croça; a parte superior do junco fica voltada para o interior da croça. Na Imagem 2 podem ver-se os juncos correspondentes ao ponto onde se fez a corda: os que estão entrançados (forro da peça) e os que não estão entrançados (exterior da peça). Isto significa que as cordas nunca são visíveis no exterior da croça.

Imagem 2

Na Imagem 3 podem ver-se as extremidades dos juncos no ponto onde se fez uma corda: do lado esquerdo da imagem as extremidades inferiores dos juncos (que foram delubadas e massadas); do lado direito, as extremidades superiores dos juncos (algumas ainda contendo flores).

Imagem 3

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

XAILES COM MICRO-POMPONS - PARTE I

alguém, neste momento, a comprar um bilhete de autocarro para Montalegre :) Três meses depois, lá conseguimos conciliar agendas para ele me ensinar a fazer os xailes (ou o que se quiser) de micro-pompons. 

Imagem 1

A estrutura, pequena mas suficiente para aprender, já estava feita. Quatro ripas de madeira com pregos à distância de um centímetro uns dos outros. O tutorial fica para depois, que esta foi só primeira sessão. Mas já ficam aqui algumas indicações.
Em Gralhas há duas pessoas que dominam esta técnica. O sr. Manuel e o sobrinho. Este último aprendeu em Angola e, depois, ensinou ao tio quando ambos trabalhavam em França. Agora, preciso de falar com o sobrinho para perceber com quem é que ele aprendeu. Que viagens terá feito esta técnica?

Imagem 2

Primeiro passo. Vamos considerar a imagem 2 e a estrutura de madeira na posição em que é retratada nessa imagem. Prender, com dois ou três nós, um dos fios de lã no prego situado no canto superior esquerdo. Dar seis voltas (podem ser as que se quiserem; quantas mais voltas, mais fofinhos (tradução: farfalhudos!) ficarão os pompons) passando o fio entre os dois pregos que se encontram - na ripa superior e na ripa inferior - em posições correspondentes. À sexta volta, na ripa superior, passar o fio para o prego situado à direita e voltar a repetir a operação até finalizarem os pregos. Voltar a prender com dois ou três nós no último prego situado no canto superior direito.

Imagem 3

De seguida, voltar a repetir esta operação (Imagem 3), com uma lá de cor diferente (ou não), nos pregos das duas outras ripas (começando sempre no canto superior esquerdo tendo a estrutura de madeira virada para nós).
Nas Imagens 4 e 5 pode ver-se o resultado final desta primeira etapa. O sr. Manuel chama a estas duas camadas de fios sobrepostos, o tecido. Veem-se, também,  as agulhas de plástico feitas pelo sr. Manuel e indispensáveis para a etapa seguinte.

 

Imagem 4

Imagem 5

Agora, a etapa seguinte (cuja explicação detalhada ficará para o tutorial, por ser mais complexa e obrigar a um maior número de imagens). Com um fio de algodão, trabalhando na diagonal do tecido, atar com um nó cada cruzamento das duas camadas de fios de lã. Repetir a operação na diagonal oposta (Imagem 6 e Imagem 7). Esta etapa tem uma série de truques que parecem muito complexos, à partida, mas que, depois de compreendida a lógica, se tornam muito fáceis de executar.

Imagem 6


Imagem 7

A próxima etapa consiste em cortar todos os fios de lã com uma lâmina ou uma tesoura pequenina. Como se vê na última imagem (Imagem 8), cada quadrado formado pela sobreposição dos fios de lã é cortado nos quatro lados. Isto significa que é a teia formada pelos fios de algodão (através dos nós) que irá segurar o conjunto dos pompons. E temos xaile :)
Tutorial para a semana!

Imagem 8

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A CROÇA II

Na construção do cabeção da croça, os dedos do sr. Constantino lidam, simultaneamente, com quatro conjuntos de juncos. Dois são mais delgados; os outros dois mais grossos. Os mais delgados são os juncos que originaram o botão da croça e que, no entrançar dos dois conjuntos mais grossos, funcionam como as cordas que os prendem. Os conjuntos mais grossos, aos quais chamarei medas, vão sendo entrançados nas cordas e formarão a primeira camada ou carreira da croça; aquela que é mais longa e que deverá proteger os ombros de quem a usa.

Os dedos sábios do sr. Constantino, neste processo de articulação entre as duas cordas e as duas medas, torcem, apertam e entrançam juncos do botão até à casa.

Se foi difícil colocar por palavras os gestos inerentes ao moldar do botão da croça, desta vez, o desafio é ainda maior! É preciso rever e rever as mais de 300 fotografias que tirei em pouco mais de uma hora. E há muitas dúvidas que subsistem, apesar do sr. Constantino me ter permitido fazer algumas operações. Acho que vou ter de fazer várias experiências até interiorizar todo o processo.

As duas cordas de junco, logo após o botão ter sido formado, recebem a primeira meda de juncos. O sr. Constantino tem as mãos treinadas. Não conta os juncos de cada vez que introduz uma nova meda no entrançado das cordas. Nas pontas dos dedos, sente que aquela é a grossura adequada. Não vale a pena contá-los, pois há juncos mais grossos e juncos mais finos.

Cada meda é dobrada ao meio e o centro é marcado pelas duas cordas que vão torcendo uma sobre a outra e sobre cada meda. Uma parte de cada meda fica para dentro; formará o forro da croça e não será penteada. A outra a parte, a que fica para fora da croça, é aquela que será penteada quando já todas as camadas tiverem sido montadas.

A extremidade de cada meda que corresponde à base do junco, é aquela que fica voltada para o exterior. A outra extremidade, a que corresponde à flor do junco, fica voltada para o interior.

 Imagem 1

Na segunda imagem pode ver-se o sr. Constantino apontando com o indicador da mão direita para a última meda que acrescentou. Sobre esta meda está já torcida uma das duas cordas (em frente ao polegar da mão esquerda está essa corda). E ao lado do polegar está a meda que foi presa anteriormente.

 Imagem 2

Qual é, então, a sequência de gestos e de cordas e medas? Coloca-se uma meda nova medindo o comprimento que a mesma deve ter na parte exterior da croça com a ajuda da meda que foi entrançada no ponto anterior (Imagem 3). De seguida, retiram-se as cascas que alguns dos juncos possam ainda ter na sua base. 


Imagem 3

Ao se colocar uma nova meda, passam-se as duas cordas sobre a mesma. Primeiro a corda da esquerda e, sobre esta, a corda da direita, torcendo-se as cordas nesse movimento. De seguida, puxa-se a meda anterior para baixo, pasando-a por cima da última meda a ser incluída, e torcendo-a sobre as duas cordas. E assim sucessivamente. Dito assim, parece fácil. Mas quando se vê pela primeira vez e não se experimenta parece tudo muito complicado.
Na imagem seguinte (Imagem 4) veem-se claramente as duas cordas de juncos: correspondem aos dois conjuntos de juncos que se situam mais à esquerda da fotografia. No meio de ambos está a meda que acabou de ser torcida para baixo. O gesto seguinte será o de adicionar uma nova meda. E a próxima meda a ser torcida para baixo será a que se vê nesta mesma imagem, com os diversos juncos direcionados para o canto superior direito.

 Imagem 4

O cabeção tem de ter um número ímpar de pontos. A contagem (Imagem 5) é feita com regularidade para se ir confirmando o número de pontos já feitos. Estas croças que estão a ser feitas pelo sr. Constantino têm 51 pontos. Não é obrigatório, contudo, que tenham esse número de pontos. Apenas que seja um número ímpar. Deste modo, para cada lado ficarão 25 pontos e o ponto 26, achado a partir de cada extremidade, é o ponto que marca o meio. É essencial para depois se colocar a tira que funcionará como o cabide da croça.
 
 Imagem 5

Quando os 51 pontos estão feitos, então, torcem-se as duas cordas sobre si mesmas e uma sobre a outra (Imagem 6) um número de vezes suficiente para se poder fazer a casa para o botão da croça. Refira-se, igualmente, que à medida que os juncos que formam as cordas se vão esgotando, há que juntar novos juncos. Faz-se esse acrescento deixando sempre uma ponta de fora que, terminado o trabalho, se cortará.

 Imagem 6

A casa do botão faz-se torcendo a corda, formada pelas duas cordas, sobre si mesma. De seguida, as duas cordas vão começar a entrançar-se sobre as medas que foram colocadas anteriormente. 
O objetivo é que cada meda fique no meio das duas cordas, tal como se pode ver nas duas imagens seguintes (Imagem 7 e Imagem 8). Em cada meda, faz-se passar a corda da direita por cima e, por cima desta, a corda da esquerda, torcendo-se cada corda sobre si mesma. A meda seguinte passa por cima da última corda que foi utilizada. E assim sucessivamente por cada meda que se vai apanhando.

 Imagem 7

 Imagem 8

O próximo passo será perceber como se fazem as tranças que constituem a segurança da croça. E como se acrescentam pontos de carreira para carreira de modo a que a croça ganhe amplitude.


 Imagem 9

Acerca de mim

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Sou uma antropóloga que só pensa em comida...
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