Ao longo destes meses do curso, as equipas foram-se formando naturalmente como resultado da empatia surgida entre as pessoas. Escolhemos os que aguentam a pressão, que são despachados, que lêem as receitas antes de as executar (porque nem todos perdem tempo a lê-las!), que perguntam aos colegas, antes de iniciar o trabalho, que tarefas pretendem assumir e que nunca se recusam a fazer trabalhos menores como lavar a loiça. Escolhemos, como colegas de equipa, aqueles que conseguem comunicar as suas ideias, que são tolerantes, que não expõem os outros quando há um erro cometido. Quando alguém faz asneira, espera-se que a pessoa assuma, mas não se espera que um colega o denuncie. Quem o faz, perde o nosso respeito.
Esta experiência tem, também, sido um espaço de auto aprendizagem. Todos já tiveram outras vidas profissionais (a maioria está ali na faixa dos 30). Uns não conseguiram singrar (a crise veio complicar ainda mais o cenário), outros decidiram abandonar as carreiras que tinham e experimentar outras vias. Há quem sempre tenha sonhado em fazer disto profissão e há quem olhe para o trabalho com a comida de forma absolutamente funcional: uma profissão como outra qualquer onde as oportunidades de emprego parecem mais vastas. Ao fim de quase quatro meses de curso, enquanto uns reforçaram a relação com o universo da cozinha e aferiram caminhos específicos para trilhar, outros concluíram que trabalhar com comida não se enquadra no futuro que idealizaram.
(Re)descobrimos, na relação com os outros elementos da equipa, as nossas idiossincrasias. As mais detestáveis e aquelas das quais nos orgulhamos. Eu, que nas outras vidas já tive equipas a meu cargo, sei que sou pouco paciente quando, em momentos em que é preciso dar o litro, uns descansam o trabalho nos outros ou se perdem em gestos e tarefas inúteis. E continuo, infelizmente, a ter a diplomacia de um Velociraptor com fome :)
Somos, no seu conjunto, um grupo com piada que ri até às lágrimas com as partidas que pregamos uns aos outros. Somos cúmplices e preocupamo-nos quando um dos nossos não está bem. Partilhamos expectativas sobre o período de estágio que está a chegar - que tarefas vamos desempenhar, que responsabilidades nos vão dar e que erros não podemos cometer.
Questionamos frequentemente os nossos chefs acerca do ambiente de estágio, dos chefs com quem podemos vir a aprender mais, da postura que devemos ter. Pedimos conselhos e sempre nos dão valiosas sugestões. Comparativamente a outros alunos da Associação (aqueles que frequentam os cursos para obtenção de equivalência ao 9º ou 12º ano), encontramo-nos numa situação paradoxal: não temos as idades nem a falta de experiência profissional que, habitualmente, estão associadas a contextos de estágios não remunerados.
Há tempos, na caixa de comentários de um post no Mesa Marcada, referiu-se a questão, raras vezes abordada nos blogues de comida, relativa à forma como as pessoas que trabalham nos restaurantes - seja na cozinha, seja na sala - são tratadas.
No curso, já ouvimos muitas histórias - mais ou menos horripilantes - acerca dos bastidores dos restaurantes. Chefs que destratam a equipa, que atiram panelas de água a ferver para cima dos cozinheiros, agressões com facas, gritos e insultos. Nada que já não tenhamos visto em filmes ou séries ou lido em livros. Ou assistido em concursos na TV. Ao contrário daquilo que se passa nas diferentes edições do Masterchef Austrália - jurados sempre tiveram uma postura muito didáctica e de reforço positivo, criticando sem humilhar - o que se passou no Masterchef Portugal foi lamentável. De alguma forma, legitimou-se o achincalhamento daqueles que na hierarquia de cozinha ocupam uma posição inferior. Péssimo exemplo em tempos de crise.
Também nos contam histórias sobre as rasteiras que se passam nas cozinhas. Frascos de sal despejados nas panelas para prejudicar os colegas, pimenta deitada às escondidas para eliminar a concorrência. A história mais macabra que nos contaram foi a de um cozinheiro que tentou assassinar uma colega envenenando-a (!). Por acaso, aconteceu num restaurante que, há alguns anos, eu frequentava com alguma assiduidade.
Preparamo-nos para uma nova etapa. Alguns com a tranquilidade que a idade trouxe, outros com uma ansiedade danada. Andamos a contar os dias para entrar numa cozinha a sério :)
