quarta-feira, 15 de maio de 2013

DOMINGOS DO ALTO E AS MADEIRAS


Havia dúvidas quanto à identificação dos tipos de madeira de que são feitas algumas das peças que vão ser emprestadas pela Casa do Capitão - Ecomuseu de Barroso para a exposição "Os panos que a casa dá". Veio, em nosso socorro, o Sr. Domingos do Alto. Isto é carvalho, isto é salgueiro, isto é amieiro, isto é pinho. Assim, sem hesitações, o que só é permitido a quem lidou, desde pequeno, com a matéria. E atrás das respostas às nossas dúvidas vieram outras histórias, outros saberes, outras memórias. Como as das formas dos socos feitas de vidoeiro. As melhores formas, isto é, as mais resistentes, tinham de ser talhadas da base da árvore. Rente ao chão o tronco era duro, duro, duro! O resto do tronco também se aproveitava, mas não dava socos tão bons.


domingo, 12 de maio de 2013

CASA DAS ERVAS SILVESTRES

Em vésperas de voltar ao Barroso para a última recolha destinada à exposição Os panos que a casa dá , passei o fim de semana na Casa das Ervas Silvestres aqui bem perto da Figueira da Foz num curso de Ervas Silvestres Comestíveis. 
Guiados pelo Miguel Boieiro, percorremos os caminhos do lugar de Outeiro da Moura em busca de espécies que não estamos habituados a comer. Das muitas e variadas ervas que o Miguel nos mostrou - indicando aquelas que podem ser usadas na nossa alimentação, as que têm aplicações medicinais e aquelas que, definitivamente, não devemos ingerir - algumas vão passar a fazer parte das comidas cá de casa. E vou passar a olhar para as urtigas do meu quintal com outros olhos...


Fiquei fã das flores de sabugueiro. Usadas para perfumar água, ou noutras preparações mais elaboradas, estas flores passaram à categoria de ambrósia! Já estou a imaginar um gelado de flores de sabugueiro...nham...nham....


A Jutta e a Laura prepararam-nos várias refeições com comidas que incorporaram muitas das ervas silvestres que ficámos a conhecer nestes dois dias. O fim de semana terminou com uma fantástica visita pedagógica à horta da Jutta e, por fim, a Laura fez vários shots de urtigas muito saborosos com ingredientes como a alfarroba, a banana, a laranja, a maçã, as sultanas, o gengibre, entre outros. 


segunda-feira, 6 de maio de 2013

A MARCAR O ESPAÇO


Tanta coisa aconteceu nos últimos dois meses. Tantas empatações. Alguns sustos. E também coisas muito boas. 
E, finalmente, a exposição avança! Lá para finais de junho, o MAP recebe o Barroso :)
Hoje andámos a marcar o espaço com os expositores, tentando encontrar um compromisso entre os materiais e as peças que vamos expor com os suportes que temos disponíveis no MAP. Suportes que não são muitos, que são antigos e que precisam de um extreme makeover para ficarem usáveis. Mas tudo se faz quando há vontade. 

terça-feira, 2 de abril de 2013

DO CARVALHO E DO CASTANHEIRO


Os dois novelos ainda cheiram, apesar de terem sido lavados, aos líquenes que os tingiram. A bicromia original do bege e do castanho expandida com outras tonalidades graças ao engenho das mulheres e aos recursos da natureza. Como aqui. 

quarta-feira, 20 de março de 2013

E TINGIU-SE A LÃ



Primeiro, lava-se a lã com sabão rosa. No fundo do pote de ferro ou do caldeiro de cobre ou de folha devem colocar-se alguns trochinhos de urze em duas camadas perpendiculares. Este procedimento destina-se a evitar que as meadas de lã assapem, isto é, que fiquem agarradas ao fundo do recipiente e, por essa razão, se queimem. De seguida, coloca-se uma camada do líquen ou de entre casca de nozes e, por cima, a meada. No meio da meada é colocada uma segunda camada de líquen ou de entre casca de nozes, dobrando-se a meada sobre esta segunda camada. Finalmente, coloca-se uma terceira camada do corante vegetal. Havendo várias meadas a tingir, repetem-se os passos, sendo a última camada, obrigatoriamente, de líquenes ou de entre casca de nozes.
O pote ou o caldeiro é depois cheio com água e colocado ao lume. Para fixar a cor, de modo a garantir a sua durabilidade, conferindo mais resistência às lavagens e à exposição ao sol, era prática usar-se o sal. Uma mão mal cheia é suficiente e deve ser deitada no pote ou no caldeiro antes deste ser tapado e da fervura se iniciar.
Depois, a água deve ferver por duas a três horas. Quanto mais tempo estiverem as meadas ao lume, mais escura ficará a cor.
De seguida, as meadas são retiradas do pote ou do caldeiro e devem ser lavadas em água corrente, novamente com sabão rosa, para retirar os restos dos líquenes ou das entre cascas das nozes. Por fim, colocam-se as meadas a secar à sombra.


Os líquenes usados na fotografia foram recolhidos nos castanheiros da Reboreda, em Salto, Montalegre. A meada é da Casa da Lã, de Bucos. A receita é da D. Benta. E, roubando a expressão ao Tiago Pereira, vale a pena ouvir as velhinhas. A bem do nosso património imaterial, que não se regista a partir de um gabinete. 


segunda-feira, 11 de março de 2013

MUITAS CAPAS


Muitas capas de burel, muitas formas de as talhar. Muitos buréis apisoados de modos distintos. As fotografias pertencem a Benjamin Pereira e fazem parte do acervo fotográfico   que pode ser visto na Casa do Capitão (Ecomuseu de Barroso) em Salto, Montalegre.
A fotografia de cima foi tirada em Travassos do Rio e, a de baixo, na Reboreda, a terra dos alfaiates, como é ainda hoje chamada pelos seus habitantes. 
Diz a D. Benta que para se fazer uma capa de burel são precisas três ovelhas bravas castanhas. Diz o sr. Francisco de Tabuadela, filho do último pisoeiro da aldeia, que para se fazer uma capa de burel são necessárias três varas de burel. 
Três ovelhas e três varas nas contas que se faziam para tapar o corpo do frio.


quinta-feira, 7 de março de 2013

TRAJE DE NOIVA



Esta é a fotografia do casamento dos avós paternos da D. Benta. Ouvi falar dela há ano e meio, vi-a em casa de uma das irmãs da D. Benta mas, na altura, não me foi possível fotografá-la. Porque para fotografar uma fotografia destas é preciso tempo para conversar. E para tirar a fotografia da moldura e poder fotografá-la sem os reflexos do vidro a atrapalharem.
Desta última vez em Barroso, houve tempo. E a habitual generosidade dos familiares da D. Benta que me ajudam sempre que preciso. A fotografia é de 1905. Irene Gonçalves Pereira Capelo tinha só 17 anos. Manuel Tomás Dias Pereira era 20 anos mais velho. D. Irene criou filhos e muitos netos. Foi ela que ensinou D. Benta e demais netas a fazer meia e a tingir os fios de lã com aquilo que a natureza dava. 
O traje de noiva perdeu-se no tempo e dele, hoje, só restam as memórias uma e outra vez resgatadas de cada vez que as netas e os netos falam na mãezinha. 

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Sou uma antropóloga que só pensa em comida...
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