segunda-feira, 11 de julho de 2011

TOURÉM I - ROL DA REGA

Para além das aprendizagens mais imediatas de âmbito teórico, metodológico e etnográfico, a pesquisa de doutoramento ensinou-me a olhar para os informantes com outros olhos. Imaginando como teria sido a vida dessas pessoas nos primeiros anos de existência. E tentando perceber como, no tempo presente, as recordações mais tortuosas e afetuosas são geridas. Aprendi, também, que devo aceitar que mesmo que os anos passem, que muitas décadas se acumulem, também eu não vou conseguir esquecer o pior e o melhor dos meus primeiros anos de vida.

Foi estranhamente recorrente na pesquisa que então desenvolvi, as memórias referentes a relações conflituosas com as mães. Uma dessas mulheres que entrevistei referia-se sempre à mãe com uma mágoa que o tempo já tinha temperado com perdão.

A minha mãe nunca me ensinou nada. Eu fui criada mais com as empregadas do que com a mãe. Mesmo as recordações de afeto, eu tenho mais das empregadas do que com a mãe. Agora as pessoas dizem que os pais estão ausentes, mas naquele tempo muito ido, acho que já a minha mãe vivia só para o negócio. Ela era mais áspera, dura. Não me lembro do afeto da mãe. As minhas filhas já me fizeram esta observação várias vezes: “Não sabemos como é que nasceste daquela barriga”. Eu sofri, tendo eu tudo quanto queria. Não é só a parte material que interessa, porque na minha idade de menina e moça ela dava-me dinheiro para eu comprar qualquer coisa. Acho que ela me compensou com coisas que seriam até  supérfluas. Não me lembro de estar ao colo da minha mãe, não tenho essa recordação com muita pena minha. Com o meu pai ,sim. Ele dizia-me: “Ó filha das minhas entranhas, dá-me um beijo que eu dou-te castanhas”. E eu depois pedia-lhe as castanhas!

E eu ficava a imaginar como teria sido a vida desta mulher em criança. Agora, com este trabalho, que se constrói em boa parte com a memórias das pessoas mais velhas, eu continuo a olhar para os olhos deles e a ver num brilho fugaz as mágoas da infância, as dores que o tempo não conseguiu mitigar, ou as alegrias lembradas como se estas fossem âncoras pacíficas do passado. Como hoje com o sr. João.

Partimos da Vila de Montalegre com o objetivo de ir fazer uma primeira entrevista com aquela que me tinha sido indicada como a última mulher a fazer aventais de costas em Pitões das Júnias. A ideia era rentabilizar a viagem e produzir já alguns registos audio-visuais. Mas o terreno é feito de imponderáveis e a tecelã não se encontrava na aldeia.

Rumámos, então, a Tourém para tentar recolher alguns testemunhos sobre outros dois temas do projeto: o rol da rega e os casamentos cantados. E pareceu que o sr. João, com 90 anos de memórias incrivelmente lúcidas, estava à nossa espera. Olhos azuis de um azul que o tempo ainda não esbateu. Explicou-me o que se cultivava naquela aldeia há muitos anos e como a água era repartida, pelos diversos campos através de um sistema de canais e de mecanismos que permitiam, e continuam a permitir, que todos possam beneficiar desse bem. Ao sr. João juntou-se o sr. Domingos e, passados alguns minutos, já eles recordavam como era vida antes das coisas modernas terem aparecido na aldeia e quando a aldeia tinha mais de 1000 pessoas e 700 vacas.

E, depois, deixámos o sr. João e fomos com o sr. Domingos conhecer o sistema de rega pela aldeia. E ver como se desviava a água por diferentes canais para servir a todos e como o Roteiro da Água dos dois caudais de água que chegam à aldeia são pacificamente geridos. Aqui nunca se matou por causa da água.





E fomos ao cemitério ver os mortos e as campas enfeitadas com flores de plástico. E depois, depois abrimos um portão e estávamos na horta mais bonita do mundo. Como se dentro daqueles muros, as flores e os vegetais tivessem encontrado a forma perfeita de se organizarem no espaço. Na casa do irmão do sr. Domingos também há uma incrível coleção de objetos. Um museu, como ele lhe chama. E vimos os muitos panos que a sua mulher tece no tear.



E depois fomos ver os animais. Já no caminho para a aldeia encontráramos uma manada de vacas que estava a ser encaminhada para a aldeia porque as vacas estão todas prenhas e vão parir na aldeia porque os bezerros não podem nascer no monte ou os lobos atacam. Já não há 700 vacas na aldeia e as cabras, que podem ter mais de 500 pulgas cada, diz o sr. Domingos, são raras. Tal como as ovelhas. Cavalos também há.  Mas esses pertencem aos montes.

2 comentários:

  1. Estou encantada com o blog e as fotografias!
    Volto mais tarde com mais tempo :)

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Sou uma antropóloga que só pensa em comida...
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