sábado, 17 de setembro de 2011

DA SEARA ÀS MEMÓRIAS DA BORRALHA

O terreno raramente é aquilo que nós planeamos. Ontem, tínhamos programado filmar a D. Benta a tosquiar as ovelhas, mas poucas horas antes de o fazermos ela teve de desmarcar. Continuámos, então, a recolha de imagens pela freguesia de Salto visitando algumas aldeias pela primeira vez e revisitando alguns dos lugares onde já tínhamos estado.
À Seara já tínhamos ido uma vez, a  convite do sr. Francisco de Tabuadela. Era um dia de algum nevoeiro e aquele lugar revelou-se mágico. Voltámos lá ontem e reencontrámos duas das pessoas com quem já tínhamos estado à conversa: D. Cândida e o seu filho Fernando. Estava sol, mas a aldeia manteve o seu encanto. Fomos com os dois botar as vacas noutro terreno e, na conversa, D. Cândida acabou por me dizer que tinha vivido um ano nas Minas da Borralha acompanhando o marido que lá trabalhava. Não gostou de lá ter estado.
Nas Minas, as mulheres chamavam curtas e compridas umas às outras e tinham de pagar multa na GNR e gastavam o dinheiro que os homens andavam a ganhar lá em baixo! O ordenado eram 4 contos e meio. Ó p... toca, canta e dança que o corno está na França!
Nas Minas preparava a merenda para o marido comer lá em baixo. Bacalhau frito num pão. Era o bocadilho. O almoço tomava sempre em casa. Quando entrava à 1h já estava almoçado.
Não tem saudades desse tempo, longe da natureza idílica da aldeia. Mesmo que na aldeia, há muitos anos, apenas ganhasse 12 escudos por mês a plantar pinheiros na serra. E só ganhasse uma broa quando amassava o pão para quem tinha forno. Uma broa é muito pouco.



No pólo de Salto do Ecomuseu de Barroso guardam-se algumas das memórias das Minas da Borralha. Como as senhas que os trabalhadores usavam para tomar as refeições e a travessa utilizada para servir bacalhau numa pensão que lá existia . Mas há ainda um mundo de recordações e de objetos a resgatar. Para que a comunidade não perca mais uma memória.


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